13.7.09

Travessia da Serra Fina


Sabe aqueles momentos em que você quer, ou precisa, desligar-se do mundo por algum tempo, deslocar-se completamente do contexto das pessoas, lugares e coisas com as quais convive no cotidiano? Pois bem, estava num momento assim. E decidi passar o feriado de 9 de julho (feriado estadual em São Paulo) fazendo a travessia da Serra Fina, em Passa Quatro (MG). Fiquei sabendo (depois) que é considerada a mais difícil travessia do Brasil... Quatro dias caminhando, três dias acampando, andando cerca de 30km, passando pela 4a montanha mais alta do Brasil (Pedra da Mina, 2798 m). Parecia bem desafiador, e algo de que eu estava precisando: cansar o corpo e descansar a mente.
Fui sozinho, mas lá nos juntamos em um grupo fantástico, de 8 pessoas, motivadas para fazer a travessia, com um astral e uma energia muito legal. É muito interessante conhecer pessoas nessa situação, pessoas de bem com a vida, dispostas a compartilhar experiências, a conviver de maneira intensa e próxima à natureza por alguns dias. Mochila nas costas com somente as coisas indispensáveis no alto da montanha (o que não é pouco, rs), saímos para subir a montanha, eu, Dani, Fabi, Adriana, Fernando, Márcio, Cesar e Verner, além dos nossos guias. No primeiro dia, subida até o Pico do Capim Amarelo, onde encontramos outros grupos. Seguimos por várias encostas com vistas maravilhosas do vale e da cidade de Cruzeiro ao longe. Muito vento, de cerca de 30 km/h, que foi quando perdi meu boné, que hoje descansa na montanha... Abastecemos de água no último ponto possível antes da Pedra da Mina (que só alcançaríamos no dia seguinte), cada um levando cerca de 4 litros na mochila. Muito companheirismo na caminhada, o pessoal ia se conhecendo, as refeições eram uma curtição à parte: macarronada na primeira noite, quando acampamos praticamente sozinhos no chamado "Maracanã". Depois ficamos sabendo que todos os outros grupos abortaram a subida para a Pedra da Mina por conta do mau tempo que se desenhava. Mas lá estávamos nós, prontos para prosseguir no segundo dia. Depois da primeira noite acampados, mal dormida e com muito, muito vento, seguimos até o pé do Pedra da Mina. Acampamos por lá para subrimos no dia seguinte. Dependendo do tempo, seguiríamos para o vale do Huá e depois ao Pico dos 3 Estados, ou abortaríamos, descendo da Pedra da Mina e voltando a Passa Quatro pela descida do Paiolinho. No jantar, arroz com farofa mineira, com bacon e linguiça defumada... :P Muita conversa, um tanto de pinga com mel só para aquecer, e vamos dormir... uma noite pior do que a anterior, com ventos que até derrubaram uma das barracas às 3 da manhã. No dia seguinte, tempo só piorando, ventos cada vez mais fortes e muita neblina. Na subida, os ventos estavam cada vez piores, cerca de 70 km/h, que nos derrubaram por várias vezes. As rajadas ainda traziam muita umidade, o que dava o efeito de uma chuva lateral bem forte, nos molhando bastante. Todos juntos, com muita determinação, conseguimos subir ao topo, e em seguida começamos a difícil descida pelo Paiolinho, abortando o resto da caminhada por conta da chuva que se anunciava. Ao final da descida, após mais de 6 horas praticamente ininterruptas de caminhada, uma miragem: um boteco com 4 frangos assados e muitas garrafas de cerveja... para a turma cansada, um verdadeiro banquete... E, com a sensação de um desafio vencido, apesar de não termos completado a travessia, voltamos à civilização.
O legal disso tudo é sentir ultrapassando alguns limites, mostrando a si mesmo até onde podemos ir, além de sentir de maneira muito forte a nossa insignificância e fragilidade frente à força da natureza, quando se está desprovido de conforto e estrutura, e tudo com o que se conta é o póprio corpo e o que ele seja capaz de carregar. E a convivência com pessoas fantásticas nesses momentos, como essa turma que se formou, só torna a aventura, embora dura, mais prazerosa ainda. Uma experiência que recomendo...
Turma da trilha, agradeço muito pelos momentos e pela caminhada, e até uma próxima!


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19.10.06

A Trilha Inca até Machu Picchu


Tirar férias é bom demais. E quando se pode fazer algo legal, uma viagem que seja um sonho sendo realizado, fica melhor ainda. Na semana passada estivemos no Peru, fizemos a caminhada pela Trilha Inca, de Cuzco até Machu Picchu, a chamada cidade perdida dos Incas. Em breve, um relato dessa nossa viagem (com muitas fotos) no Canto Virtual - secao "viagens". Mas gostaria antes disso de compartilhar um pouco do que foi essa experiência para mim.

De uma maneira geral, foi um grande exercício de superação pessoal, daqueles para mostrar para nós mesmos que somos capazes de fazer. A caminhada de mais de 40 km durante quatro dias no meio do mato, andando e acampando em altitudes entre 2500 e 4200 metros não é uma tarefa que possa ser classificada como trivial(ainda que com carregadores ajudando), para pessoas normais, que não sejam exatamente o que possa ser chamado de "atleta". E conseguimos passar por ela. Uma vitória, que já teria por si só valido a viagem. Mas, além disso, tivemos a experiência de poder sentir um pouco do que foi a civilização Inca. O nosso guia ao longo desses dias, o Jim, eu acredito que possa ser considerado um patrimônio da trilha, pelo conhecimento e vivência do lugar. Formado em História, conseguiu nos mostrar coisas que transcendem os livros, além das sensações de estar nos lugares, sentir o ambiente e as coisas que fizeram parte da vida desse povo. E foi muito legal tomar conhecimento do quão avançados eram, e a forma brutal como foram "colonizados" cultural e religiosamente pelos europeus católicos. Quando os Incas conquistavam outros povos na América do Sul - e não foram poucos -, eles respeitavam a cultura e religião daquele povo, absorviam o que havia de interessante, útil e passavam a sua cultura e tecnologia para o povo conquistado, a partir de então sob o controle do Império Inca. Um tipo de conquista inteligente. Diferente da colonização católica, que simplesmente não poderia admitir que os povos ditos "selvagens" pudessem ter algo a lhes oferecer em algum campo do conhecimento. E com isso certamente deixaram de aprender muitas coisas valiosas, uma vez que so estavam preocupados em conseguir mao-de-obra, terras e almas pagas para serem - por vezes forçadamente - convertidas ao catolicismo. As construções Incas eram mais resistentes a terremotos do que as dos espanhóis, só para dar um exepmplo simples dentre tantos outros.

E o fato de fazer a caminhada toda, o que é feito por uma parcela pequena dos turistas que vão a Machu Picchu, é entrar em contato com um ambiente diferente, uma energia que transcende aquelas matas, aqueles morros e que chega ao seu ápice ao adentrar na cidade perdida através do portal do Sol. Alguns dizem que as pessoas que trilham aquele caminho passam por transformações. Não sei se voltei transformado, mas que algo diferente acontece ali, a mim pareceu inegável...
Viver a Trilha Inca, o caminho mais comprido entre Ollantaytambo e Machu Picchu, é perseguir um pouco desta História, é trilhar o mesmo caminho que trilharvam os peregrinos prestes a serem iniciados na religião Inca como sacerdotes. E ver em cada uma daquelas ruínas a beleza e o respeito a natureza que os cercava, através da qual eles entravam em contato com Deus. E não importa o nome, rosto ou rostos que davam a esse Deus, mas era o Deus que estava nas pedras, que estava no Sol, na natureza que lhes era dada como dádiva, mas também sobre a qual tinham responsabilidades, e exploravam com muito cuidado e com uma consciência infinitas vezes maior do que a dos conquistadores, auto-intitulados mensageiros da verdade para propagá-la às almas dos pobres selvagens, para que estes fossem salvos. Talvez os povos da América Latina estivessem melhores hoje se algma coisa tivesse sido diferente por ali...



"Machu Picchu es un viaje a la serenidad del alma, a la eterna fusión con el cosmos, allí sentimos nuestra fragilidad. Es una de las maravillas más grandes de Sudamérica. Un reposar de mariposas en el epicentro del gran círculo de la vida. Otro milagro más. "
Pablo Neruda

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