11.9.09

JN, 40 anos...


Reproduzo aqui texto que li no Observatório da Imprensa. Original aqui.

Cada um conta o que quer contar

Muitos leitores devem ter notado que a TV Globo passou as duas últimas semanas celebrando o aniversário de 40 anos do Jornal Nacional. Desde a sua criação, o telejornal global é, de longe, a principal fonte de informação de milhões de brasileiros.
William Bonner e Fátima Bernardes fizeram questão de nos lembrar das tantas glórias conquistadas pelo JN e pelo jornalismo da emissora. Matérias intermináveis (intermináveis mesmo, de quase 15 minutos) exaltaram os feitos do telejornal. Os mais antigos repórteres (os que certamente melhor cumprem ordens do patrão) foram chamados à bancada e, ao vivo, recordaram as coberturas dos fatos que marcaram a história recente do país.
Telespectadores desavisados, desconhecedores de episódios importantes da vida nacional, talvez até tenham ficado com lágrimas nos olhos.
É fato incontestável que o Jornal Nacional consolidou-se desde a década de 1970 (estreou em 1969) como símbolo do poder das Organizações Globo. Com uma estrutura quatro, cinco ou seis vezes maior do que os telejornais de suas concorrentes, ainda hoje bota medo na maioria dos políticos, que temem ser alvos de abordagens, digamos, pouco simpáticas. Quando as menções são positivas, aí é só festa. Dá até para pensar em vôos mais altos. Símbolo maior desse poder é o fato de seu lobista-chefe ser chamado de "senador" nos corredores do Congresso Nacional. Sem nunca ter sido candidato nem eleito para cargo algum, desfruta de poderes que nenhum parlamentar possui.

Linha de frente
O JN tem todo o direito de comemorar o que bem entender. Aliás, a Globo é perita em se autopromover. Já fez isso em diversas ocasiões e continua a fazer com competência, posando de defensora da cultura nacional e da liberdade de expressão, além da já manjada face "solidária" que os Crianças Esperanças da vida buscam construir.
O perigo iminente disso tudo é que, em um país pouco conhecedor da biografia de seus meios de comunicação, corre-se o risco de reescrever a história. O temor não se faz em vão: como historiadores cansam de afirmar, a memória coletiva muitas vezes é fruto do legado dos mais fortes.
Mas voltemos ao nosso tema. Como era previsível, o JN tratou de lembrar das tantas ocasiões nas quais noticiou fatos da vida política, econômica, cultural e esportiva do país. Esqueceu-se, no entanto(e ao acaso isso não pode ser creditado), de recordar os momentos em que o telejornal global foi ele mesmo sujeito da história.
Ficou de fora da retrospectiva, por exemplo, que o surgimento e fortalecimento da TV Globo deu-se a partir de um acordo ilegal com o grupo estrangeiro Time-Life, que foi inclusive objeto de CPI no Congresso Nacional.
Esqueceram de dizer que a emissora foi criada e se fortaleceu com o apoio decisivo dos sucessivos governos militares. E que seu jornalismo, em especial o JN, ignorou solenemente as torturas, os desaparecimentos e as mortes dos que lutavam contra a ditadura, como se não tivessem acontecido.
O resgate histórico deixou de lado a tentativa de ignorar o movimento pelas eleições diretas nos primeiros anos da década de 1980, assim como a participação da emissora na tentativa mal sucedida de fraude nas eleições para o governo do Rio de Janeiro, com o objetivo de evitar a posse de Leonel Brizola.
A memória seletiva igualmente deu conta de apagar a participação decisiva do JN na eleição de Fernando Collor em 1989, quando a emissora editou de forma canalha o último debate entre Collor e Lula, além de utilizar contra o candidato petista as acusações lunáticas de sua ex-mulher e o seqüestro do empresário Abílio Diniz.
Nos anos seguintes, de forma nem um pouco sutil, foi linha de frente na consolidação da idéia (hoje comprovadamente furada) de que o neoliberalismo e a privatização de empresas estatais eram o único caminho a seguir, impulsionando a eleição e reeleição de FHC à Presidência.

Tapete vermelho
Há ainda uma série infindável de episódios mais recentes que poderiam ser acrescentados à lista, como a cobertura favorável ao tucano Alckmin nas últimas eleições presidenciais. Ao contrário de outras tentativas, a tática não deu certo, graças à multiplicação das fontes de informação e, quem sabe, ao aumento da consciência política das classes menos favorecidas.
Fato é que, ao longo de toda a sua história, a Globo consolidou-se como os olhos e ouvidos da atrasada elite brasileira, cerrando fileiras contra movimentos sociais e quaisquer políticas distributivas. Em Brasília, seu "senador" é sempre recebido com afagos. Tapetes vermelhos se estendem aos seus pés. E assim, políticas que visam democratizar as comunicações do país são enterradas antes mesmo de nascerem.
É normal, compreensível até, que o JN tente recontar a sua própria história. O que não pode acontecer é que a história não contada por ele seja esquecida por nós.



Marcadores: ,

16.9.08

Lula, Satiagraha e a Real Politik

Repercutindo do Blog do Nassif:
(Se é verdade ou não, não sei, mas se for levado a sério, é muito, muito grave... teoria conspiratória ao extremo? Sei não...)

Atenção, um novo capítulo se abre para o caso Satiagraha.

O governo Lula acertou um acordo com a Editora Abril – e, por extensão, com Daniel Dantas – para anular a Operação Satiagraha. O acordo foi montado da seguinte maneira:

1. É impossível interferir nos trabalhos em andamento do Ministério Público Federal e do juiz De Sanctis. A ofensiva de Gilmar Mendes foi um tiro no pé.

2. A estratégia acertada consistirá em tentar anular o inquérito de Protógenes, no âmbito da Polícia Federal. A versão preparada é que o inquérito continha irregularidades que precisariam ser sanadas. E a Polícia Federal colocou seus homens de ouro para “salvar” o inquérito. O trabalho dos “homens de ouro, na verdade, será o de garantir a anulação do inquérito.

3. Ao mesmo tempo, o governo aproveitará o factóide dos 52 funcionários da ABIN que participaram da operação - uma ação de colaboração já prevista pelo Sistema Brasileiro de Inteligência - para consumar a degola de Paulo Lacerda. A matéria do Estadão de domingo, o da "demissão em off" estava correta. Sabe-se, internamente no governo, que a operação foi normal. Assim como se tem plena convicção de que o tal “grampo” entre Gilmar Mendes e Demóstenes Torres foi uma armação. Mas Lula se curvou à real politik.

4. De sua parte, jornais e jornalistas mais envolvidos com o jogo estão reforçando essa versão do “inquérito ilegal” e do messianismo do delegado Protógenes. A armação, agora, terá o reforço da concordância tácita do Palácio.

5. O pacto foi referendado pela Ministra-Chefe da Casa Civil Dilma Rousseff. O Ministro Tarso Genro foi o que se mostrou mais constrangido com a operação, mas acabou se curvando à força dos fatos. Com essa operação, Lula e Dilma passam a ser aceitos no grande salão nobre, pavimentando a candidatura da Ministra para as próximas eleições.

6. O seu principal adversário, José Serra, já é outro aliado que entrou à reboque da Editora Abril. Está pagando um preço caro, com a descaracterização do seu discurso político.

7. A bola, agora, está com o Ministério Público e o Juiz De Sanctis, que terão que trabalhar com essa nova peça do jogo: a intenção de se anular o inquérito.

Não sei por que, mas o evento da Abril me lembrou aquela cena épica de Francis Ford Copolla, o fecho do filme. Enquanto todos estão na grande ópera, os inimigos são fuzilados na calada da noite.

Na grande festa foram selados os destinos do delegado Protógenes e Paulo Lacerda, dois funcionários públicos cumpridores da lei. Anotem os nomes deles e os repassem para seus filhos e netos: foram dois brasileiros dignos, sacrificados por um jogo sujo.

É o fim da grande batalha pela instituição da legalidade no país? Longe disso. É apenas um novo capítulo. Tanto assim, que integrantes próximos ao jogo estão completamente incomodados, assim como vários colegas jornalistas, que entenderam que esse jogo de cena foi longe demais e está comprometendo a imagem da categoria como um todo.

Com tanta testemunha, tanto conflito de consciência, julgam ser possível varrer o elefante para debaixo do tapete? É muita falta de fé no estágio atual de desenvolvimento do país.

Marcadores:

16.7.08

O Brasil chora...


... ou deveria chorar...

Chorar pelo delegado Protógenes Queiroz e seus assistentes, que foram afastados de suas funções na condução das investigações sérias que poderiam levar a uma verdadeira "limpeza" nas instituições da República... Aliás, afastados não, eles decidiram "coincidentemente", segundo o Ministro da Justiça, que vão fazer cursos, tratar de problemas pessoais, mudar de setor... curioso que isso ocorra justamente na época em que tudo isso esteja acontecendo...

Chorar pelos que ainda acreditavam que "como nunca na História desse país" a polícia estava realmente tendo a independência necessária para investigar e prender criminosos, quem quer que fosse, doesse a quem doesse... os fatos mostraram o contrário... existem pessoas com as quais não se deve mexer...

Chorar pelo sinal de que realmente salvam-se poucos (se não nenhum) nessa história toda, sinalizado pelo silêncio que impera na oposição, DEM-PSDB, que estariam segundo consta, envolvidos até o pescoço com o tal banqueiro... Ninguém fala, a ninguém interessa que ele fale...

Chorar pela oportunidade perdida, de que pudéssemos sinalizar ao nosso povo, de alguma maneira, que existem sim, pessoas que acreditam que esse país possa ser diferente, mais justo, onde não interessaria suas origens ou sua conta bancária, a justiça seria realmente imparcial e cega, como sugere a estátua à frente do prédio do Supremo Tribunal Federal...

Chorar pelo juiz De Sanctis, pelo procurador Rodrigo De Grantis, aplaudindo sua postura, sua crença na Justiça (assim, com "J" maiúsculo) e na idéia de que é possível, sim, fazê-la acontecer independentemente da "estirpe" dos envolvidos... eles não podem ser afastados, mas podem ser desqualificados, isolados pela imprensa... por que a Globo deu, na segunda(14/07) 4 minutos do JN para defender o ponto de vista de Gilmar Mendes a respeito dos dois habeas corpus dados em tempo recorde, e uma citação de 6 segundos (sem imagens ou entrevistas) a respeito do ato de procuradores e juízes a favor de De Sanctis? Será que ninguém vê (ou não quer ver) isso?

Chorar pela atitude da maior parte da imprensa brasileira, que prefere dar espaço às críticas à "espetacularização" das prisões ao invés de questionar a própria postura, em alguns casos, de acobertar interesses escusos e ajudar na manipulação e alienação da opinião pública... Quarta-feira, na Record News, o presidente do Supremo e o Ministro da Justiça anunciavam a intenção de acabar com a "espetacularização" nas ações da PF. Ao mesmo tempo, na Globo, as imagens de uns ladrões "pés-de-chinelo" em Alagoas, sendo presos e algemados na frente da televisão. Imagem corriqueira, eles não são políticos, não têm bancos, não tem amigos no STF... imagem corriqueira, normal, portanto... alguém reclama disso?

Mas o Brasil não chora, o Brasil é um país lindo, o povo é feliz, supera tudo, temos o Carnaval, o melhor futebol - aliás, e a seleção do Dunga, hein? E o Corinthians na segunda divisão, que coisa! -... "Esse ano tem eleição"... "que droga, de novo?" "Acho que vou justificar..." "esse país não tem jeito mesmo, para que votar?" "Em quem eu votei para deputado mesmo? Não me lembro..." "Você viu a novela ontem?" "E o Big Brother do ano que vem, já tá chegando..."

É, o Brasil deveria chorar...


"Acreditar no mundo é o que mais nos falta; nós perdemos completamente o mundo, nos desapossaram dele. Acreditar no mundo significa principalmente suscitar acontecimentos, mesmo pequenos, que escapem ao controle, ou engendrar novos espaços-tempos, mesmo de superfície ou volume reduzidos. (...) É ao nível de cada tentativa que se avalia a capacidade de resistência ou, ao contrário, a submissão a um controle. Necessita-se ao mesmo tempo de criação e povo."
Gilles Deleuze

P.S.: Apesar de tudo, eu ainda acredito... Podemos mudar tudo isso, depende de cada um de nós...

Marcadores:

13.7.08

Prende, solta, prende... e solta de novo???


Pegou mal... pegou muito mal mesmo a velocidade com que o juiz do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, forneceu 2 habeas corpus para garantir a liberdade do banqueiro Daniel Dantas. Em um país onde nos acostumamos a ver a impunidade como uma coisa corriqueira, cotidiana, operações "abafa" para proteger os criminosos "de alta estirpe", a sensação de injustiça e de que "todos são iguais perante a lei", mas alguns são mais "iguais" do que os outros...

Ou alguém aí acha que um juiz da mais alta Corte do país teria uma pressa dessas para libertar qualquer cidadão comum encrencado com a polícia? Atenção, cidadãos de bem em geral, anotem aí o e-mail do meritíssimo: mgilmar@stf.gov.br, pois nunca se sabe quando qualquer um de nós, cidadãos cumpridores da lei, poderemos ser vítimas de perseguições e prisões arbitrárias pela polícia.

Uma investigação de anos, que aponta os crimes deste cidadão (inclusive já condenado em cortes internacionais) traz inúmeras provas, e ainda uma confissão de um dos presos de que ele teria oferecido R$ 1 milhão (dinheiro já apreendido, inclusive) para subornar um delegado da polícia para que ele se "esquecesse" de incluir alguns nomes no inquérito, dentre os quais o de Dantas. Um telefonema gravado entre alguns "amigos" diz que Dantas teria que se preocupar somente com a primeira instância, porque depois era tranquilo por causa do Gilmar... que Gilmar seria esse?

A mim, um cidadão desinformado e pagador de impostos, parece que esse cidadão tem algo a temer. Mas tem também muitos amigos, ao que me parece, ao ver como a imprensa de uma maneira geral chama tanta atenção à maneira "agressiva" como a PF agiu - alguém reclamaria disso se os presos não fossem pessoas com dinheiro e posição? -, e não se dando a devida atenção aos delitos em si, relacionando-os simplesmente como "desdobramento do mensalão", ao passo que não é nada disso. Duas "pérolas" da jornalista Míriam Leitão me saltaram aos olhos e ouvidos: Ela disse não entender o porquê da prisão de Dantas, pois as acusações tratam de "coisas do passado", e outra, ainda questionava por que Dantas havia sido preso se há tanta gente envolvida no mensalão que ainda estava solta. Por essa lógica, a Polícia deveria deixar livres os condenados por coisas "do passado", e ainda liberar todos os presos, uma vez que existem criminosos soltos... faça-me o favor...

Não querendo entrar no mérito da decisão do juiz (afinal, é prerrogativa de sua função decidir pela sua própria interpretação das leis e dos fatos), mas em um país onde a imagem da Justiça vem sendo ao longo dos anos manchada pela idéia de morosidade e de impunidade já descrita acima, a eficiência demonstrada nesse caso soa, no mínimo, estranha...

Acho que o país nunca teve uma polícia tão atuante e com tanta liberdade de prender e investigar quem quer que seja, amigo ou inimigo de quem seja... O país deveria orgulhar-se de pessoas como o Juiz Federal Fausto Martin de Sanctis, que pediu as duas prisões de Dantas, e dos delegados da PF Victor Hugo Alves (que não aceitou e filmou a tentativa de suborno) e Protógenes Queiroz, que vem conduzindo as investigações. Não estranharia nada se nos próximos dias, meses, esses senhores venham a ser literalmente "detonados" pela imprensa, embora estivessem estritamente no cumprimento - exemplar, diga-se de passagem - das suas funções para com o nosso país, que precisa muito, muito, de gente como eles...

E muita gente mais entendida do que o humilde escriba aqui aplaude a ação desses senhores, e questiona a atitude de Gilmar Mendes, veja aqui.

Petition OnLine: Petição de repúdio ao Ministro Gilmar Mendes, eu já assinei. Vai adiantar? Não sei, mas que dá uma vontade enorme de ver as coisas mudarem nesse nosso país, ah, isso dá...

Para quem quiser fugir um pouco do que a mídia "normal" ou "alinhada" diz, depois pode analisar e pensar por si mesmo:
Conversa Afiada - Paulo Henrique Amorim
Carta Capital
Luís Nassif

(imagem: reprodução de "O Estado de São Paulo)

Marcadores:

30.6.08

"Como se tivesse cometido algum crime"


Vez ou outra eu acabo vendo uma notícia que me soa algo de estranho... A notícia que vi hoje na Folha Online, Ex-presidente do TSE depõe como testemunha no inquérito da Operação Pasargada, chamou-me a atenção por um pequeno detalhe, bem sutil...
A notícia era sobre o fato do referido magistrado (Carlos Velloso, ex-presidente do STF e do TSE) ter sido intimado a comparecer como testemunha. Como o próprio relatou - segundo a reportagem -, que eventualmente seu nome poderia ter sido citado por algum lobista envolvido, ou alguma outra coisa. Até aí, tudo bem, se o tal magistrado tem envolvimento ou não, é outra estória. O que me chamou a atenção foi a seguinte "pérola": ""Não se trata um ex-presidente do STF e do TSE como se fosse alguém que cometeu um crime", queixando-se dos termos da intimação.
Agora, eu espero que não tenha entendido direito o que o magistrado quis dizer. Para meus pobres ouvidos juridicamente leigos, soou como se a pessoa que tiver ocupado algum desses cargos jamais pode ter sua conduta questionada? Isso acaba me remetendo a uma das coisas que - eu acho - o Brasil tem de pior. A idéia de que todos são iguais perante as leis, mas uns são "mais iguais" do que os outros...
São fatos como esse, que fazem com que idéias como essas acabam permeando pela sociedade, ao ponto das pessoas acharem plenamente justificável ter algum privilégio, aplicação da "Lei de Gérson" pura e simples... com exemplos como esse, como condenar a cultura de levar vantagem em tudo? Acho que ainda temos muito o que aprender como país...

(imagem: http://dartevasques.blogspot.com)

Marcadores:

29.5.08

E o bom senso venceu...

Recebi hoje com alegria a notícia de que o Supremo Tribunal Federal rejeitou a ação de inconstitucionalidade que poderia proibir as pesquisas com células-tronco embrionárias. Parecia-me temeroso que sob pretextos que não se justificariam pela razão (no sentido de "bom senso" utilizado no título do post) fossem simplesmente proibidas de serem efetivadas pesquisas que poderiam ser - e o são - de extrema importância para a descoberta de curas antes impensáveis para doenças degenerativas. Doenças essas que fazem sofrer não só aos seus portadores, mas também às pessoas à sua volta, que sofrem pela impotência diante do avanço da doença, que vai aos poucos tirando a dignidade e a independência do portador... por que razão tirar a possibilidade de que seja encontrada alguma forma de ajudar essas pessoas?

A parte que mais me irrita é ver isso ser discutido e questionado por pessoas que não entendem absolutamente nada do que se trata isso tudo, e são levadas a defender pontos de vista baseados em argumentações falsamente moralistas e - por que não dizer - retrógradas e ultrapassadas.

A mesma Igreja que defende a proibição das pesquisas com a argumentação da defesa da vida dos embriões - veja bem, a vida dos embriões que jamais seriam sers humanos, seriam sim descartados de qualquer forma, se não aproveitados(*) - em detrimento da dignidade e da vida de seus semelhantes portadores de doenças sérias é a Igreja que com séculos de atraso reconhece seus erros, como na época da Inquisição... Mas arrepender-se e assumir erros com séculos de atraso já é realmente tarde demais para aqueles que já foram feitos vítimas, tanto para o caso de perseguição de outrora quanto para os hoje portadores das doenças que podem vir a ser curadas com essas pesquisas... Desde o começo, pareceu-me um debate óbvio demais para se perder tanto tempo com ele... mas felizmente, o beom senso prevaleceu...


(*) Segundo publicado no UOL:
O artigo 5º da Lei de Biossegurança (número 11.105, de 24 de março de 2005), diz que "É permitida, para fins de pesquisa e terapia, a utilização de células-tronco embrionárias obtidas de embriões humanos produzidos por fertilização 'in vitro' e não utilizados no respectivo procedimento". O texto impõe como condições que os embriões sejam "inviáveis ou congelados há três anos ou mais, na data da publicação da Lei, ou que, já congelados na data da publicação desta Lei, depois de completarem três anos, contados a partir da data de congelamento."

Marcadores:

6.2.08

A vida dos outros

Ultimamente tenho tido sorte ao escolher filmes para assistir. Taí um filme que tinha tudo para ser meio óbvio (na minha opinião) e surpreende. A trama se passa na Alemanha socialista, e mostra como o Estado mantinha potenciais suspeitos sob estrita vigilância. E como as pessoas que na verdade constituíam aquele Estado (como qualquer estado, sob qualquer regime) podiam interferir - e de fato o faziam - de acordo com suas próprias vontades e convicções. Convicções essas por vezes com raízes ideológicas, por outras com motivos menos nobres. Altera-se o objetivo da instituição que compõem, para o bem e para o mal. Por fim, acaba tratando das relações humanas e suas diferentes percepções, e que naquele contexto interferiu significativamente na vida dos personagens.

A trama é muito bem trabalhada, e a construção psicológica de alguns personagens também, em especial a do dedicado agente convocado para espionar o casal suspeito. O final do filme, ao meu ver, é singelo e tocante. Recomendo.
E saí de lá pensando, como sempre acontece comigo quando vejo um filme bom. Porque filme bom para mim deve ser aquele que te faz pensar algo a mais, que lhe acrescenta algo. Blockbusters que me perdoem, mas conteúdo é fundamental. E fiquei pensando no quanto que uma instituição, seja ela política, religiosa ou de outra ordem, foge dos seus princípios quando os interesses das pessoas que as compõem se sobressaem sobre os interesses maiores, ou comuns. E acho que a própria natureza humana acaba tornando impossível uma instituição coesa, se essa for formada por humanos. E como o contrário até agora não é possível, as instituições são falhas, sempre. Não estou sugerindo que
elas sejam compostas por robôs ou computadores, mas apenas que não podemos colocá-las acima de qualquer suspeita ou julgamento, pois por definição, são sempre passíveis de falhas. A História está repleta de exemplos, e por várias vezes, talvez ela tivesse sido diferente se as pessoas tivessem por vezes pensado no coletivo, pensado como a instituição. Porque em geral - com exceções, claro -, as instituições tinham boas intenções, ao menos na teoria.

Marcadores: ,

7.10.07

Tropa de Elite

Como não podia deixar de ser, precisava escrever algo a respeito do filme. Não por obrigação de escrever por aqui, que pelo intervalo entre posts dá para perceber que não é lá uma preocupação muito grande... mas queria escrever por que senti que precisava, depois de pensar um tanto sobre coisas que esse filme e reações a ele me fizeram refletir...

O filme, para quem ainda não viu ou não ouviu falar, mostra como age o Batalhão de Operações Especiais - BOPE, a chamada "Tropa de Elite" da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Policiais teoricamente incorruptíveis e bem-treinados, que se utilizam de tortura, execução sumária entre outros métodos característicos de militares em regimes de exceção. O livro no qual é baseado parcialmente o filme, fala inclusive de corrupção nesse batalhão, coisa sobre a qual no filme não se fala em nenhum momento. O filme, embora extremamente bem-feito do ponto de vista técnico e sob a estética de Hollywood, é, na minha opinião, excessivamente simplista em diversos aspectos, como na colocação feita pelo anti-herói do filme, Capitão Nascimento (Wagner Moura, aliás, excelente no papel), de que "viciado vagabundo é que financia o tráfico", passando longe de qualquer discussão em relação a descriminalização das drogas ou um entendimento maior do que criou e o que mantém aquele cenário. É uma visão de um militar, criado e treinado para simplesmente matar aqueles que ele (juiz e executor) considerar que se colocam contra a verdade e a justiça.

O problema maior no meu ver é a banalização da violência e da "aceitação" das técnicas utilizadas pelo BOPE como plenamente justificáveis. Fala-se muito da reação das pessoas nas platéias que viram o filme, na impressão generalizada de delírio e "torcida" quando um menino é torturado com tapas e um saco de plástico na cabeça, para dar uma informação. Ele não dá a informação, os policiais têm que ir embora, matam o menino gratuitamente. Para mim, a reação da platéia (confirmada por comentários que ouvi de pessoas que assistiram ao filme), é um sinal mais do que claro de que nossa sociedade está doente. O mesmos sistema que cria personagens como o Capitão Nascimento também gera esse sentimento generalizado de que isso é certo, de que todo pobre que mora na favela é em potencial um bandido, e cuja vida vale menos do que nada. O Capitão Nascimento, que se julga acima da lei e do arrependimento ("para um oficial do BOPE, o remorso é um sentimento muito perigoso", ele diz), justificando-se a todo momento por estar em estado de guerra, foi formado pelo sistema, o mesmo sistema que corrompe a polícia e nega oportunidades aos desfavorecidos, criando poderes paralelos em mundos paralelos, onde a moral ganha novos contornos com inversões de valores. Afinal , quem protege e ajuda (até financeiramente algumas vezes) a comunidade não é o poder público ou a polícia, mas sim o traficante que controla o local. E é interessante que no momento em que ele, Capitão Nascimento, precisa se tornar humano, com o nascimento do filho e a necessidade de estar próximo da família, ele precisa se desligar do BOPE. O BOPE não pode ter policiais humanos. Os "fracos" lá não entram. E no sentido contrário, o policial que está sendo treinado para substituí-lo, Mathias, só está pronto, só se torna um "policial de verdade" quando justamente perde seu lado humano, de estar se relacionando com outras pessoas.

E a mensagem que o filme passa (ao menos para mim, não sei se era a intenção do diretor) é isso, de que temos uma sociedade doente que cria figuras como essa e são - para meu espanto, sinceramente - apontados como hérois, como aqueles que não se renderam à corrupção ou se omitiram. Simplesmente "vão para a guerra", onde qualquer atitude é justificável. Não sei se o que me preocupa mais é saber que essas coisas (tortura, execuções e abusos por parte daquela que seria a "elite" da polícia) acontecem no nosso cotidiano, ou saber que isso é visto por grande parte da população como um ato de heroísmo e justiça. Tenho realmente muito medo do futuro em uma sociedade onde a maioria da população possa vir a acreditar que a solução seja realmente a proliferação de batalhões como esse, para acabar com todos os problemas de segurança que possam existir...

(foto: divulgação/montagem)

Marcadores: ,

11.12.06

Pinochet


Uma ironia do destino que ele tenha morrido ontem. Justamente no aniversário da Declaração Universal dos Direitos do Homem. Alguém que durante sua vida pública praticamente os ignorou, quando os regimes ditatoriais afloravam na América Latina, patrocinados pelos Estados Unidos. Escondido atrás da imunidade que o cargo lhe emprestava, liderou um dos mais terríveis regimes ditatoriais da História recente. Milhares de opositores executados, dentro e fora do Chile, para justificar o poder que lhe fora dado pelos militares. Mas tirando essa parte, que todo mundo sabe, fico a pensar no que leva um ser humano a perder completamente o respeito pela vida humana dessa forma? Ninguém em sã consciência faria isso pura e simplesmente por maldade. Sou levado a acreditar em insanidade, em um nível profundo. Uma crença verdadeira de que se estava fazendo algo para uma causa maior, que deveria ser alcançada a qualquer preço, mesmo que este preço seja a vida de milhares de pessoas que se opõem a suas idéias. ALgo completa e totalmente injustificável, sob qualquer aspecto. Nada, nenhuma idéia no mundo, por mais correta que seja, deveria ser razão para a perda de vidas humanas. Religião, política, pedaços de terra, petróleo, diferenças étnicas, tudo isso deveria ser muito muito menor se comparado com o valor da vida, de uma que fosse... o mundo definitivamente seria um lugar bem melhor sem pessoas como esse que se foi ontem.
Que a Humanidade esteja livre de pessoas assim nas gerações que virão...

(foto: UOL/AFP)

Marcadores:

25.9.06

Por que voto Lula

Ao contrário do que pode parecer, não é um texto para convencer ninguém a mudar seu voto, ou ainda justificar a alguém a minha escolha. É muito mais um desabafo, talvez no máximo uma justificativa a mim mesmo, sobre essa decisão difícil. Costuma-se dizer que futebol, religião e política não se discute. Eu concordo em relação às duas primeiras, que podem - e geralmente são - opiniões guiadas muito mais pela emoção do que a razão. Mas, quanto à política, tenho que discordar. É importante que se discuta, que opiniões sejam colocadas, enfim...

Nessa campanha eleitoral eu estive muito à parte de tudo, o que pode parecer estranho em especial àqueles que me conhecem há mais tempo, de eleições passadas, onde eu militava, discutia, angariava votos e tudo o mais. A desilusão que tomou a todos que acreditavam que em 2002 um 'novo tempo' se abriria ao Brasil me pegou também. Cheguei a pensar seriamente em votar na Heloísa Helena, símbolo de coerência e decência para não compactuar de alguma forma com tudo o que se mostrou nesse governo. Voto de protesto, obviamente. Mas qual a diferença entre os que estão lá agora e os que estiveram lá antes? Tentando me livrar um tanto do linchamento moral encampado pela imprensa (afinal, escândalos vendem jornal, certo?), a mim pareceu muito que os esquemas de corrupção estavam lá, sempre existiram, e agora as diferenças são muito mais do quanto aparecem, e como não apareciam. Julgar que todas as pessoas de um determinado grupo ou partido são incorruptíveis é ingenuidade. Por má-fé, ou por achar que o bem maior de manter-se no poder para um projeto de mudança valeria pequenos deslizes, essas coisas corrompem. E cá entre nós, dólares na cueca e mais de um milhão em dinheiro não parece coisa de armação, ou de ladrão amador? E nunca um governo foi tão investigado como esse. E nunca a Polícia Federal teve tanta liberdade para agir, procuradores públicos ativos, não engavetando e abafando escândalos e investigações.

E partindo para o campo mais otimista, para fugir do "todos os políicos são iguais, safados, ladrões e etc", vale a justificativa colocada no post que escrevi há algum tempo atrás: Por que vai dar Lula?

Para o Brasil como um todo, fala-se muito em um crescimento pífio, carga tributária enorme, juros altíssimos (embora mais baixos do que com FHC), mas fala-se muito pouco do que melhorou na vida das pessoas menos favorecidas. Se as classes mais baixas do país fossem um país à parte, esse suposto país teria crescido mais do que a China(exemplo de crescimento altíssimo) nos últimos anos. O Brasil que queremos é um em que o bolo cresça igualmente para todos, ou que cresça um pouquinho mais para aqueles que mais precisam? O maior problema do país não é que a economia precisa crescer, mas sim que precisamos acabar com a diferença abismal que existe entre os poucos brasileiros ricos(muito ricos) e os muitos brasileiros pobres(muito pobres), uma diferença sem paralelo no mundo, em nação nenhuma em momento nenhum na História. Se o governo atual toma medidas para acabar com isso a longo prazo, ainda precisamos descobrir. Mas que está fazendo uma tremenda diferença na vida das pessoas que nunca foram lembradas antes, isto está. Os programas sociais, estritamente assistencialistas podem não resolver nada a longo prazo, mas fizeram a vida dessas pessoas melhorarem. E como os adversários nem isso fizeram, eu ainda aposto em Lula. Não com a paixão e esperança de eleições passadas, mas com um gosto amargo do conformismo, de estar votando no menos pior e, porque não dizer, com o nariz tampado na hora de votar. E torcer para que consigamos uma renovação no congresso que nos leve a um novo jeito, mais limpo de se fazer política, a médio e longo prazo. Uma
reforma política como deve ser feita. Mas o perigo é que quem vai fazê-la são os políticos. Por isso, escolhamos bem.


PS: Se alguém ainda estiver procurando bons candidatos a deputado em SP, tenho 2 nomes de pessoas sérias e decentes para recomendar:

Ivan Valente - federal 5050
Carlos Neder - estadual 13666

Marcadores:

26.8.06

Por que vai dar Lula?


Uma coisa muito interessante vem acontecendo nessa campanha eleitoral. Todo mundo esperava uma campanha "sangrenta", onde o Lula seria achincalhado por todos por conta das denúncias de corrupção, deveria por conta disso cair nas pesquisas, e aí deveria começar a baixaria, troca de acusações entre todos, até o final. Mas o que ninguém esperava aconteceu: apesar de todas as denúncias, todas as coisas já confirmadas a respeio do governo Lula, ele continua com aprovação absoluta da população, bate recordes de popularidade e segue, ao que tudo indica, para uma reeleição no primeiro turno. Como algum homem público é capaz de "apanhar" por tanto tempo e ainda assim permanecer forte? Li já há algum tempo um artigo do Dimenstein na Folha, onde ele de alguma forma tenta explicar isso. Baseia sua análise numa pesquisa feita pelo economista Ricardo Paes de Barros. Os cálculos do economista analisam os programas sociais do governo e que, para os 20% mais pobres da população, a adoção desses programas,
aliada ao cotrole da inflação, ao aumento substancial do salário mínimo teve um impacto absurdamente grande sobre essa população. É um crescimento comparável com o da economia da China nos últimos tempos. Os dados se baseiam em informações do IBGE, e vêm se mantendo de maneira consistente durante os últimos 2 anos. Se os programas podem ser melhorados, ou se eles colaboram realmente para uma diminuição da desigualdade, aí é outra estória. Já se fala há tempos que existem vários "Brasis", dado o tamanho do abismo social que se instaurou em nossa sociedade ao longo da história. Pois agora nota-se que o Brasil rico, das camadas mais favorecidas, está com o tal crescimento pífio, estagnado conforme alardeado pela oposição. Em contrapartida, a população menos favorecida está em digamos, euforia. Nota-se, por exemplo, que para os 10% mais pobres o poder aquisitivo subiu 16% só no ano de 2004. Isso para um crescimento médio de cerca de 4% (o tal pífio). Em nenhum momento a pesquisa utiliza esses dados para justificar o desempenho de Lula (Dimenstein o faz no artigo).
Levando em conta essa "euforia" e o fato de que grande parte da população não entende as notícias sobre corrupção, generalizando o fato de que "político nenhum presta, são todos iguais", e o fato de que Lula pudesse, de fato, não estar envolvido em nada - afinal, ele é um deles, um "do povo", não faria isso ,é diferente.
A história acabará dizendo o que estamos vivendo hoje, mas o fato é que a estabilidade econômica herdada de FHC, a adaptação de alguns programas sociais já existentes criaram esse quadro de hoje. Se vai se manter, veremos. Mas por enquanto, paliativo ou não, o remédio dado a essa parcela da população parece que vai realmente reeleger Lula.

Marcadores:

26.6.06

Anestesia coletiva

Um país inteiro, milhões de pessoas anestesiadas... é exatamente essa a sensação no Brasil em tempos de copa do mundo... é fantástico como as coisas param, tudo fica meio que no ar, o tempo passa meio devagar, e todos se unem em torno de algo único, forte, que concentra de maneira forte um nacionalismo, um ufanismo que em outros lugares seria canalizado para guerras, disputas étnicas e/ou religiosas, aqui só consegue ser focalizado para torcer pela nossa seleção de futebol. É verdade que se vê também torcidas fanáticas em outros países, mas por aqui é diferente. Diferente e praticamente impossível de ser explicado a um estrangeiro. Tente se imaginar chegando a um país onde tudo, trabalho, escola, bancos, serviços públicos, tudo permanece parado enquanto a seleção nacional disputa uma partida de futebol. Fico imaginando quão grande é a força, a vontade e a capacidade de união desse povo maravilhoso que é o povo brasileiro. Capacidade de superação, de luta, vem logo à lembrança de uma estória que ocorreu há muito tempo atrás, de um rapaz simples, que seguia chorando e correndo a pé o cortejo fúnebre do Ayrton Senna. Vendo o que ocorria, alguém da família de Senna (acho que a mãe, não me lembro bem) pediu que alguém chamasse o rapaz, para que seguisse de carro com a família. Ele recusou. E seguiu correndo, como que sua própria superação fosse como que uma homenagem ao ídolo morto. Fica uma sensação de força, de poder e de união muito grande. O que seria desse país se todo esse poder fosse canalizado para uma politização maior, uma preocupação e uma fé em mudar o país para melhor. Que a preocupação com a escalação do ataque da seleção seja trocada pela preocupação com reformas na educação, na política. Ninguém ia realmente saber onde esse país iria parar... Fizessem marcação cerrada com seus representantes parlamentares como fazem com técnico, jogadores, quando fazem coisas com que não concordam... o poder ao povo, democracia, enfim... seria muito bom. E olha que quem diz isso não é nenhum ser alheio ao futebol, muito pelo contrário, gosto, torço, acompanho, palpito... mas é que dá realmente uma dor no coração a sensação de que tanta coisa podia ser diferente por aqui... podíamos ser maiores, como já somos no mundo do futebol...

Marcadores:

14.5.06

O problema do gás boliviano

Então... tremendo barulho a imprensa brasileira tem feito a respeito da postura do governo boliviano em relação ao gás, e à Petrobrás em especial. Para pessoas que não procuram se informar melhor, vêem só o que a grande mídia quer vender, parecia um tremendo golpe na economia brasileira, um verdadeiro tapa na cara da nossa diplomacia, etc. Mas, vendo com mais calma a situação toda, pode-se ver que a dependência não é tão grande e catastrófica assim, e que, se parássemos um pouco de ser tão nacionalistas, ou ainda, nos colocássemos no lugar dos bolivianos com esse mesmo nacionalismo que se exacerba em ano de copa do mundo, provavelmente acharíamos justo a reivindicação de revisão de contratos com multinacionais, e teríamos provavlemente a imprensa nacional a favor, reivindicando pretensos direitos perdidos em contratos firmados por governos anteriores. Mas, como estamos do outro lado, o ponto de vista é outro, e, afinal, se a notícia nào for bombástica, nào se vende jornal... e a imprensa continua tentando dar vazão a isso, sem nem sequer questionar se essas ações por parte do governo boliviano não podem estar sendo usadas para fins eleitorais na Bolívia (eleições estão próximas), e afinal, essa nacionalização fazia parte das promessas de campanha de Evo Morales. A questão de que a própria Bolívia dependeria mais das exportações brasileiras do que nós do gás deles também foi tratada muito superficialmente. Até a imprensa internacional começou a publicar colocações pouco louváveis à maneira como a diplomacia brasileira tratava o caso. Talvez pela estranheza... parece-me muito a situação de um garoto que não quer brigar na escola, embora tenha motivos para isso, e todos à sua volta o ficam instigando a brigar. Resta-nos esperar para ver até onde o presidente boliviano vai levar essa crise toda. Mas uma coisa que me chamou a atenção e que retrata bem a posição da mídia nessa estória toda foi a seguinte matéria: Amorim não descarta retirar embaixador de La Paz. Lendo a matéria, entende-se que na verdade, essa hipótese nem foi tratada pelo ministro em questão. Ele simplesmente não respondeu à pergunta, dando uma evasiva a respeito, dizendo que não era algo para ser pensado no momento, era preciso verificar diálogos possíveis, etc. Mas, como foi colocada a manchete, podia dar a entender que tal opção estivesse sendo levada em consideração seriamente... mas, se fosse colocada de maneira diferente, não vendia jornal, certo?

Marcadores:

19.4.06

Maluf e os fuscas


Estava eu trabalhando tranquilamente hoje quando recebo um e-mail de um colega com esta notícia do site Consultor Jurídico, sobre os tais fuscas com os quais o então prefeito de São Paulo, Paulo Maluf presenteou a seleção brasileira de futebol em 1970 com dinheiro público.
A notícia dizia que Maluf não teria que devolver o dinheiro aos cofres públicos, após mais de 30 anos de processo. A primeira reação que eu tive foi de raiva, que vergonha, esse país é uma vergonha mesmo, etc, etc... mas, vamos conhecer os fatos, ver o que se passa... e a sensação que ficou foi essa mesmo, infelizmente... Em princípio, pela minha ignorância no campo do direito, achei que eventualmente alguma brecha legal poderia ter sido encontrada pelos tão bem pagos advogados do réu. Mas, qual não foi minha surpresa ao ler a tal notícia e ver que não, que simplesmente a lei usada para a condenação foi considerada indevidamente aplicada(?!)
E pelos comentários de pessoas entendidas no campo do direito publicadas no site, a indignação era meio generalizada mesmo... acho que foi um excelente contra-exemplo àquela frase que diz: "A justiça tarda, mas não falha". Ao menos por enquanto, parece-me meio óbvio que neste caso, a Justiça(com J maiúsculo) tardou e falhou... resta-nos acreditar numa outra justiça...

Marcadores:

15.3.06

Ano de eleições...

Ontem finalmente terminou a lenga-lenga em torno do nome do PSDB para a
presidência, acabou ganhando o que a princípio paraceria óbvio (se é que se pode falar em óbvio em política no Brasil), ganhou quem não tem mais de meio mandato por cumprir, quem desde o começo assumiu a candidatura, e justamente por isso pode começar a fazer a campanha dentro do partido.
Usando meios agressivos, como dirão alguns, mas o fato é que usou todas as regras do jogo a seu favor. Mostrou-se hábil para fazer política, e conseguiu o impensável até pouco tempo atrás, que era impensável, que era desarticular a candidatura do Serra. O Serra na verdade nunca quis ser candidato a prefeito, só o foi porque o partido não tinha outro nome e o convenceram. Ele esperava que acontecesse o mesmo para essa camapanha presidencial. Só se esqueceu de avisar o Alckmin... Por enquanto, eu não sei em quem votar... Mas, também por enquanto, se for Lula x Alckmin no segundo turno, vou de Lula de novo... mas esse ano promete uma tremenda campanha... e vão querer oferecer a candidatura de governador como consolação, muito difícil de ele aceitar, ele quer mesmo a presidência. Vamos ver... e eu, que já fui muito engajado, estou muito desiludido com tudo o que vem acontecendo, nem tenho o ânimo que tinha antes para discutir, convencer, angariar votos... aiaiai... pode ser que seja a idade chegando mesmo...

Marcadores: