13.7.09

Travessia da Serra Fina


Sabe aqueles momentos em que você quer, ou precisa, desligar-se do mundo por algum tempo, deslocar-se completamente do contexto das pessoas, lugares e coisas com as quais convive no cotidiano? Pois bem, estava num momento assim. E decidi passar o feriado de 9 de julho (feriado estadual em São Paulo) fazendo a travessia da Serra Fina, em Passa Quatro (MG). Fiquei sabendo (depois) que é considerada a mais difícil travessia do Brasil... Quatro dias caminhando, três dias acampando, andando cerca de 30km, passando pela 4a montanha mais alta do Brasil (Pedra da Mina, 2798 m). Parecia bem desafiador, e algo de que eu estava precisando: cansar o corpo e descansar a mente.
Fui sozinho, mas lá nos juntamos em um grupo fantástico, de 8 pessoas, motivadas para fazer a travessia, com um astral e uma energia muito legal. É muito interessante conhecer pessoas nessa situação, pessoas de bem com a vida, dispostas a compartilhar experiências, a conviver de maneira intensa e próxima à natureza por alguns dias. Mochila nas costas com somente as coisas indispensáveis no alto da montanha (o que não é pouco, rs), saímos para subir a montanha, eu, Dani, Fabi, Adriana, Fernando, Márcio, Cesar e Verner, além dos nossos guias. No primeiro dia, subida até o Pico do Capim Amarelo, onde encontramos outros grupos. Seguimos por várias encostas com vistas maravilhosas do vale e da cidade de Cruzeiro ao longe. Muito vento, de cerca de 30 km/h, que foi quando perdi meu boné, que hoje descansa na montanha... Abastecemos de água no último ponto possível antes da Pedra da Mina (que só alcançaríamos no dia seguinte), cada um levando cerca de 4 litros na mochila. Muito companheirismo na caminhada, o pessoal ia se conhecendo, as refeições eram uma curtição à parte: macarronada na primeira noite, quando acampamos praticamente sozinhos no chamado "Maracanã". Depois ficamos sabendo que todos os outros grupos abortaram a subida para a Pedra da Mina por conta do mau tempo que se desenhava. Mas lá estávamos nós, prontos para prosseguir no segundo dia. Depois da primeira noite acampados, mal dormida e com muito, muito vento, seguimos até o pé do Pedra da Mina. Acampamos por lá para subrimos no dia seguinte. Dependendo do tempo, seguiríamos para o vale do Huá e depois ao Pico dos 3 Estados, ou abortaríamos, descendo da Pedra da Mina e voltando a Passa Quatro pela descida do Paiolinho. No jantar, arroz com farofa mineira, com bacon e linguiça defumada... :P Muita conversa, um tanto de pinga com mel só para aquecer, e vamos dormir... uma noite pior do que a anterior, com ventos que até derrubaram uma das barracas às 3 da manhã. No dia seguinte, tempo só piorando, ventos cada vez mais fortes e muita neblina. Na subida, os ventos estavam cada vez piores, cerca de 70 km/h, que nos derrubaram por várias vezes. As rajadas ainda traziam muita umidade, o que dava o efeito de uma chuva lateral bem forte, nos molhando bastante. Todos juntos, com muita determinação, conseguimos subir ao topo, e em seguida começamos a difícil descida pelo Paiolinho, abortando o resto da caminhada por conta da chuva que se anunciava. Ao final da descida, após mais de 6 horas praticamente ininterruptas de caminhada, uma miragem: um boteco com 4 frangos assados e muitas garrafas de cerveja... para a turma cansada, um verdadeiro banquete... E, com a sensação de um desafio vencido, apesar de não termos completado a travessia, voltamos à civilização.
O legal disso tudo é sentir ultrapassando alguns limites, mostrando a si mesmo até onde podemos ir, além de sentir de maneira muito forte a nossa insignificância e fragilidade frente à força da natureza, quando se está desprovido de conforto e estrutura, e tudo com o que se conta é o póprio corpo e o que ele seja capaz de carregar. E a convivência com pessoas fantásticas nesses momentos, como essa turma que se formou, só torna a aventura, embora dura, mais prazerosa ainda. Uma experiência que recomendo...
Turma da trilha, agradeço muito pelos momentos e pela caminhada, e até uma próxima!


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29.3.09

Creep

Ainda de ressaca do show da semana passada, do Radiohead... Assisti em São Paulo, há bastante tempo que eu não ia a um show grande, foi bem legal... uma vez me disseram que a vida poderia ser simplesmente um bom show de rock... :-)
Aí resolvi colocar esse videozinho aqui, a música é muito bonita, a letra (e o vídeo também) é extremamente triste, e remete um tanto a um outro post de algum tempo atrás. Para simplesmete ouvir, ou para pensar...





Espero que curtam... embora meu estado de espírito esteja longe dessa tristeza, consigo ver beleza nela, consigo sentir o quão forte e significante pode ser sentir-se só, meio que desencaixado desse mundo sob vários aspectos... E sempre, sempre podemos recomeçar, contando com pessoas que nos rodeiam, mas antes de tudo, contando com nós mesmos...

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8.2.09

Como pode parecer normal?

Na última sexta fui surpreendido pela notícia abaixo:

Jovem é esfaqueado por "furar fila" de supermercado em São Paulo

Na verdade a chamada não era muito destacada, era apenas mais uma no meio das notícias cotidianas, normais do dia-a-dia. A notícia em si me pareceu assustadora, como uma coisa destas acontece, a que ponto uma pessoa pode chegar por conta de um motivo aparentemente fútil, corriqueiro. Não consta que o agressor tivesse antecedentes ou algo assim. Simplesmente uma discussão pelo lugar na fila começou, lá pelas tantas o cara saca um canivete e pronto, fura o outro. Não sei o que aconteceu depois, e aliás nem me interessa, posso deixar isso para os "Datenas" e seus programas "mundo cão" discutirem. De qualquer forma, uma coisa é ocorrer uma tentativa de assassinato durante um assalto, uma fuga da polícia, ou coisa assim. Mas numa situação corriqueira assim, ainda me assusta.
Agora, não sei se assusta mais o fato em si ou o pouco destaque dado à notícia, colocando-a assim, como algo simplesmente cotidiano. Cotidiano de um mundo que, definitivamente, não quero fazer parte.

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8.7.08

Ode aos desajustados...

Sabe aquele momento em que você se sente meio único, sozinho, meio que sempre na contramão, nadando contra a corrente? Por pensar em desacordo com o tal do "senso comum", o óbvio, o que se convencionou chamar de "normal"...

Fico pensando às vezes quantas vezes às pessoas são levadas a pensar ou agir de maneira diferente do que gostaria por causa de outros. Por conta de ser mais fácil, por conta de não ter que ficar se explicando a toda hora... A todo momento na vida temos que tomar decisões, fazer escolhas... quantas delas nos permitimos decidir do fundo da alma, da forma como realmente pensamos e queremos? Ou é uma escolha profissional, ou a forma como cuidar ou educar os seus filhos, ou escolhas sobre o que fazer com o seu dinheiro, com o seu tempo livre, com a sua vida... Por muitas vezes percebo que as pessoas não entendem os que pensam diferentes, e, de maneira consciente ou não, censuram, julgam, rotulam e ainda - por muitas vezes - tentam vender as suas próprias "escolhas" como as melhores, as "corretas", as "mais adequadas"... algumas pessoas que conheci ao longo da minha caminhada romperam com o "normal" em respeito aos seus próprios sonhos... mudanças tardias (tardias para o ponto de vista "normal", que fique claro) de carreira, outras escolhas firmes porém questionadas por muitos ao seu redor... admiro essas pessoas, pela coragem, determinação e dedicação aos seus próprios sonhos, à sua essência...

Eu particularmente acho que deve ser muito chato fazer tudo certinho, sempre da maneira como esperam de nós, sempre a favor da corrente... acho que sou um pouco daqueles que prefere transgredir, experimentar, inventar... e muitas vezes me decepciono com as reações das pessoas a respeito dos atos das outras... as pessoas são tão diferentes, tão únicas, porque o que serve para uns tantos tem que necessariamente ser o correto para todos? Não faz o menor sentido... E isso acaba me remetendo a um filme que vi já há algum tempo, Into The Wild (Na natureza selvagem, como foi traduzido), que conta a estória real de um rapaz que deseja romper com tudo, sentir-se em sua própria essência, isolar-se de tudo e de todos, e vai... o filme é - na minha opinião - de uma sensibilidade enorme, a trilha sonora excelente (cantada por Eddie Vedder, do Pearl Jam) que me chamou muito a atenção... acho que muitos dentre nós devem se deixar levar, sem perceber, pela corrente, pelo senso comum e deixa adormecido o que se tem de mais puro e verdadeiro. Sentimentos que podem muitas vezes não serem bonitos de serem mostrados ou admitidos, mas que são nossos... obviamente que existem coisas que não podemos fazer ou mostrar, afinal de contas vivemos em sociedade, temos regras a serem seguidas, é óbvio. Mas esse encontro com nossa própria essência, descobrir verdadeiramente o que somos, o que nos serve, o que é nosso e o que não é, acho que pode ser uma experiência ímpar, tremendamente enriquecedora e que pode trazer um aprendizado tremendo... e acho que nunca é tarde para se conhecer, para se entender... resta a cada um fazer essa escolha, escolher seu próprio caminho , suas ferramentas, tomar coragem e... deixar-se levar, nem que seja por instantes, para ver onde iria...

Enfim, era mais ou menos isso que andava rondando minha cabeça, e queria colocar por aqui, dividir com outros e comigo mesmo... como sempre, escrever aqui me faz pensar...


"Quem pensa por si mesmo é livre,
E ser livre é coisa muito séria" - Renato Russo


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24.2.08

Conexões


Existem pessoas em nossas vidas que vêm e vão, outras que permanecem. Você já teve a sensação de que por algumas vezes, pessoas aparecem e reaparecem na sua vida como se por um propósito específico, momentâneo? Simples, mas extremamente importante. Como se naquele momento em que estamos precisando de alguma coisa, com algum problema, aparece alguém que você não vê faz tempo, para lhe dizer ou mostrar algo de que você necessita naquele preciso instante. Como se algo que regesse nossas vidas, nossos destinos - podem chamar Deus, destino, conjunções astrais ou outra coisa -, estivesse agindo, fazendo as coisas se encaixarem de alguma forma. Por vezes isso nos passa despercebido, mas se procurarmos, conseguimos nos lembrar de inúmeras situações onde coisas desse tipo ocorreram.
Encontros como esses realmente são raros, e únicos em sua maioria. Como se fôssemos almas conectadas, pessoas especiais aparecem em nossas vidas, e são muito importantes, às vezes próximas, às vezes distantes... mas sempre, de alguma forma, com uma conexão que transcenda o nosso entendimento... durante muito tempo achei que conexões como essas, com pessoas queridas com que perdemos contato ao longo dos anos, poderiam ser mantidas. Podem, mas os anos acabaram me mostrando (ao menos no meu caso) que são poucas, muito poucas. Um encontro de almas, algo raro, mas muito bonito de se viver, eu creio. Alguém já disse que a amizade é uma alma com dois corpos... exageros a parte, acho que deve ser algo assim... E me deixa muito feliz o fato de eu conseguir enxergar hoje essas conexões em grandes amigos, pessoas muito especiais, muito importantes para mim. Umas mais próximas, outras mais afastadas, mas a cada reencontro a certeza de rolar da mesma forma, como em uma conversa interrompida por um breve intervalo, como se nada tivesse acontecido e tempo nenhum passado... Obrigado a vocês todos...

Hoje
E porque estou falando nisso hoje? Hoje tentei me despedir de uma pessoa, um grande amigo que está partindo, em busca de seus caminhos e seus sonhos. E é uma pessoa que me é muito especial, com quem eu sinto intensamente essa conexão. Por inúmeros motivos, não pude ir vê-lo. Queria muito poder ter estado com ele, dado um abraço, e que essa despedida não tivesse que ser através de uma fria linha telefônica. Tanto a se dizer, e a vida nos jogando de um lado para outro, privando-nos desses momentos. Querido amigo, vá, viva, o mundo é grande demais, descubra-o uma duas, várias vezes, temos muito ainda por fazer e viver... descubra seus verdadeiros caminhos, busque pelos seus sonhos e pelo seu destino, mesmo naqueles momentos em que não sabemos muito a respeito deles... Vou sentir falta das conversas, das coisas de que não gosto mas preciso ouvir, da sua paciência em me ouvir e responder sem julgar, mesmo quando discorda de cada vírgula do que eu falo. Isso lhe faz grande, imprescindível. Receba de mim um grande imenso abraço, um desejo de uma excelente jornada, e um até breve, até um próximo reencontro... para continuar aquela conversa...

(foto: Loto Azul)

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20.1.08

A culpa é do Fidel!


Fui assistir a esse filme, depois de ler sobre ele o que minha irmã escreveu sobre ele. O filme é ótimo, e me fez pensar algumas coisas. A estória de uma menina francesa no início dos anos 70, que tem uma vida de uma família burguesa, excelente aluna de um colégio de freiras. A trama se desenrola quando os pais da menina se tornam ativistas socialistas, fazendo com que a vida da menina mude bastante em função disso. O interessante da estória é que tudo se desenrola a partir da visão da menina (cuja atriz consegue construir uma personagem fantástica), da sua percepção do mundo e das coisas que a cercam. Da mesma forma que em Kamchatka e Machuca, que contam estórias de crianças vivendo a ditadura argentina e o golpe militar no Chile, respectivamente.
Sempre muito interessante colocar as coisas do ponto de vista das crianças, para quem tudo parece sempre simples e direto, quase óbvio. Faz-nos pensar nas contradições da nossa sociedade e nas nossas próprias. No caso da pequena Anna, personagem do filme, ela é uma menina de 9 anos extremamente inteligente, articulada, certamente devido à formação dada muito mais pelos seus pais do que pelo colégio. Extremamente questionadora, fica revoltada quando vê as coisas no mundo ao seu redor saírem da lógica em que sempre funcionaram. Os "barbudos vermelhos" (nas palavras de sua babá, uma cubana exilada anti-Fidel) entrando e saindo da sua casa, a mudança para uma casa pequena, tudo a leva a reclamar e questionar, pedindo as coisas da sua outra realidade de volta. Ao longo do filme ela começa a entender algumas coisas, chegando ao ponto de questionar o pai o porquê de ele ter se omitido e não participado dos protestos de maio de 68. Perguntas que obviamente, nem ele consegue responder direito. Mostra o crescimento e amadurecimento da menina que passa a compreender o mundo por uma outra ótica. Estória linda, tocante. E me fez pensar em como transmitir para nossos filhos uma formação questionadora e ao mesmo tempo lidar com nossas próprias contradições, nossos limites, nossos desencontros que muitas vezes não respondemos para nós mesmos. Tarefa dura essa. Mas depois de pensar, acho que preferiria poder fornecer aos filhos que ainda não tenho essa idéia de que o mundo tem contradições, o mundo precisa realmente ser questionado. Que não façamos desses filhos pessoas e cidadãos que nos repitam, mas que questionem, inventem, mudem e consigam fazer com esse mundo coisas que nós e nossos pais não conseguimos. Esse mundo merece.

(foto: divulgação)

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14.12.07

Epitáfio

Estava eu outro dia dirigindo pela estrada que corta a cidade, pela manhã, quando de repente, em plena cidade grande, no céu, aparece um imenso arco-íris. Fiquei com vontade de parar, encostei no acostamento, liguei o pisca-alerta, saí do carro e fiquei olhando para ele. Normalmente, eles não aparecem grandes, apenas uma parte. Mas esse era enorme. Estava por acaso com a câmera no carro, e tirei essa foto. Fiquei ainda um tempo parado lá, olhando, levando aquela leve garoa no rosto. Sim, garoa, afinal, é um requisito para a existência de um arco-íris.
Poderia ter passado horas ali, observando esse pequeno presente que a Natureza nos oferece de vez em quando, e pensando em quantas vezes temos tempo para observá-los. Fiquei viajando um tanto, pensando em quantas vezes deixamos de observar coisas, de viver coisas, por não nos permitirmos, por inúmeros motivos: ou a falta de tempo, ou não darmos importância a determinadas coisas, ou simplesmente adiarmos algo que queremos muito, porque colocamos outras coisas como prioridades. Quantas destas coisas são realmente escolhas nossas, de coração, e quantas outras nos são impostas? E não necessariamente impostas por outros, mas por nós mesmos, silenciando nossos desejos verdadeiros em favor do que é mais 'correto', ou esperado que façamos ou que desejemos?
Sempre, desde que me entendo por gente, disse que gostava de viver intensamente, viver o momento, que é aquilo que temos, o que realmente importa, mas hoje vejo que muito disso era pura teoria. É difícil colocar isso em prática. A vida nos coloca em situações que não nos permite fazê-lo. Cabe a nós ter a coragem e clareza de encarar isso. Teríamos que ter coragem de nos entregarmos mais à vida, vivermos os momentos com a devida intensidade, a vida com a reverência que lhe é devida. Olharmos mais arco-íris, nos permitirmos passar mais tempo com as pessoas que nos são verdadeiramente importantes, fazendo as coisas por puro prazer, entregar-se... permitir vivenciar paixões, apaixonar-se por um livro, por um momento, por um quadro... ouvir uma música à exaustão enquanto ela continuar lhe tocando, satisfazendo... sorver uma poesia e ficar repetindo-a internamente pelo tempo em que ela continuar lhe fazendo sentido... permitir apaixonar-se pela mesma pessoa várias vezes, conseguir manter a ternura e a poesia protegidas do mundo que gira sem parar, impelindo-lhe para longe delas... não ter medo de parecer ridículo, não ter medo de demonstrar o que sente... permitir que as emoções e sentimentos sejam vividos, e não guardados e esquecidos... Afinal de contas, a vida é o agora, já, e pode realmente terminar na próxima esquina... isso torna cada momento tão especial e único, e acho que assim deveria ser tratado. E quantas vezes não deixamos momentos passar... alguns momentos a mais fazendo coisas que nos dão prazer, ficar ao lado das pessoas que nos são realmente importantes...
E como será que serei lembrado pelas pessoas ao meu redor? Espero ser lembrado como alguém que sim, tentou viver de maneira plena, não deixando as coisas para depois, aproveitando os momentos e permitindo-se viver... acho que é isso, simplesmente viver... acho que seria essa a mensagem que gostaria de deixar, como num epitáfio. Que não desperdicem os arco-íris ao longo da vida, aproveitem ao máximo que puderem, sempre... sorriam, sonhem, arrisquem, envolvam-se, apaixonem-se, vivam... acho que é essa a dádiva maior que a força que criou isso tudo nos deu...
Acho que é essa a mensagem importante para passar nesse final de ano...
É, acho que acabei encontrando o meu pote de ouro no final do arco-íris... :-)

foto: Cristiano Rodrigues

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1.1.07

Ano novo...


"Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.

Industrializou a esperança,
fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar
e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação
e tudo começa outra vez, com outro número
e outra vontade de acreditar
que daqui para diante,
vai ser diferente.
"


"O Tempo", de Carlos Drummond de Andrade

Como bem colocou o poeta, início do ano é tempo de acreditar, tempo de tomar fôlego para recomeçar, tempo para imaginar que todos os nossos sonhos se realizarão, que todos eles podem caber nos próximos 365 dias, uma sensação de esperança ímpar, que fica como que guardada e restrita para ese momento mágico que é a chamada "virada" do ano. Os problemas parecem solucionáveis, os obstáculos tornam-se menos significantes, consegue-se a força e a confiança necessárias para conseguirmos tudo. A mim chama muito a atenção como as pessoas se tornam mais confiantes e esperançosas em relação a quase tudo nesse momento especial.

Importante é pensarmos o quanto podemos sim ser fortes, podemos conquistar tudo o que queremos, continuando a perseguir nossos sonhos com essa certeza no coração e com determinação na mente. Perde-se muita energia com coisas a que damos importância maior do que merecem, e deixamos de lado as coisas que realmente importam. Mantendo o foco no que realmente importa, no que realmente queremos fazer e conquistar, faz uma imensa diferença em termos ou não sucesso nos nossos projetos, nossos sonhos. Se isso não for o bastante por si só, certamente ajuda para que o universo conspire a nosso favor. E o importante é nos lembrarmos de que não é necessário que seja a virada do ano para termos tudo isso ao nosso alcance, pertinho de nossas mãos. Toda hora, todo dia pode ser hora de renovar, de fazer e refazer planos, e sobretudo, de acreditarmos em nós mesmos e em nossos sonhos. Se nós próprios não fizermos isso, quem fará?

Desejo a vocês um feliz 2007, com muitos sonhos realizados, mas o importante, com esses pensamentos em mente, ontem, hoje e a qualquer hora...

figura de http://www.freedesktopwallpapers.net)

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4.11.06

30 anos... e agora?

Na última sexta dia 3, completei meu trigésimo aniversário. Apenas mais um ano, não fosse o espanto das pessoas, e acho que o meu próprio, com a diferença que faz estar mudando o tal dígito da dezena. Aos 10 acho que nem nos damos conta, aos 20 estive ocupado em entrar na vida adulta, talvez tenha passado mais desapercebido. Mas aos 30 algumas coisas já mudaram, e principalmente alguns conceitos sobre tudo certamente já não são os mesmos. A família já não tem a mesma configuração de antes, membros a mais e a menos... As amizades de outrora já vão distantes, por mais que nos esforcemos para mantê-las conectadas... é, o tempo passou. O mundo virtual nos traz uma sensação de termos todos muito próximos, quando na verdade estão longe, longe, quase como que em outro mundo, outra realidade.
Talvez essa seja uma simples perda da inocência que poderia restar, agora que completei 30 anos ela se foi... Sempre fui uma pessoa que prezou muito pelos laços de amizade, e perceber sua fragilidade doeu muito... por mais óbvio que isso possa parecer, acho que me passou despercebido ao longo dos anos, achando que tudo estava ali, tudo sempre da mesma maneira, as mesmas pessoas seriam aquelas, com os mesmos sentimentos, mesmas idéias, a mesma cumplicidade entre amigos de verdade. Aos que estão distantes, queria lembrar que sempre é tempo, pense um pouco nas pessoas que lhes foram importantes, o quanto pode significar para elas um telefonema, uma lembrança, um contato para falar de tudo, falar de nada... E a eles, os poucos amigos próximos que restam, os amigos presentes, que estiveram e estão sempre presentes e disponíveis depois de tanto tempo, só posso agradecer, e muito. Porque essa presença, sentir vocês, não é pouco. Acho que é a principal coisa que me bateu, agora aos 30, e gostei de poder compartilhar com vocês...
E para mim é muito muito importante. Com vocês todos cheguei até aqui, e espero continuar contando com vocês. E que os próximos 30 passem numa boa, com muito mais a viver, muito mais a aprender e a crescer, sempre. Obrigado.

Alguém muito especial...
E nesse momento não podia deixar de lembrar alguém que esteve ao meu lado durante quase a metade desses 30 anos, e que tem me ensinado muito, apoiado muito e estado sempre presente, nos momentos felizes e tristes, nos difíceis e fáceis. Ana Paula, essa pessoa que é minha amiga, minha companheira, esposa, amante, confidente, tudo o que eu possa precisar e mais um pouco. Surpreendendo-me a cada momento, reinventando comigo o amor, a paixão e todos os muitos sentimentos que eles podem conter, com todas as suas nuances, boas e ruins. Passamos por incontáveis momentos, e a cada vez reinventamos o nosso mundo, mostramos um ao outro o que era bom, o que era possível, e mantivemos sempre a certeza inabalável de que seguiríamos juntos, e quando algo aparece para dizer o contrário, sempre conseguimos nos provar que podemos, e vamos em frente. E com isso tudo que a cada momento cresce a certeza de querer envelhecer ao seu lado, aprender muito mais com você, dividir muito mais ainda, viajar a muitos lugares que ainda não conhecemos, viver muitas sensações novas ao seu lado, continuar construindo nossa família e continuar reinventando nossas vidas, nosa paixão, sempre que necessário. Ainda que só nós dois possamos compreender coisas só nossas, continuamos reservando-as para a nossa realidade. A você, mulher única e incomparável, marcante e inesquecível, meu muito obrigado, que nunca será suficiente para dimensionar o quanto você é importante, e o quanto me sinto especial e abençoado por ter você ao meu lado. Amo você, querida, e espero comemorar muitos aniversários ainda tendo você ao meu lado...

(imagem editada a partir de originais de http://www.ancientsculpturegallery.com/, http://imagescommerce.bcentral.com/, http://babyholder.com)

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1.10.06

O retorno de Saturno


"E aos vinte e nove, com o retorno de Saturno
Decidi começar a viver..."

Legião Urbana

Eu não me considero totalmente cético a respeito de nada - o que não quer dizer que acredito em tudo, apenas não duvido de nada -, uma das coisas a respeito da qual sei muito pouco, mas tenho um tremendo respeito é a astrologia. Não a astrologia de jornal, que teoricamente prevê o seu dia-a-dia, pretensamente norteia suas ações e altera suas ações no micro, mas sim aquela astrologia séria, que realmente tenta explicar a influência dos astros na nossa vida, que pode até ser explicado cientificamente de alguma forma. O fato é que ultimamente por coincidência tenho ouvido falar, e lido casualmente algo a respeito do retorno de Saturno. Saturno tem um ciclo completo ao redor do Sol que dura torno de 29 anos. Desta forma, quando temos por volta dos 29 anos, Saturno está relativamente ao Sol na mesma posição do momento de noso nascimento. Saturno representava o deus do Tempo segundo a mitologia greco-romana. Desta forma, a figura de Saturno aparece como uma espécie de "tutor", para nos cobrar as realizações e verificar o que fizemos ao longo do tempo que passou desde a sua última "passagem". Nesse momento da vida acredita-se então que as pessoas passem por momentos de decisões, de mudanças, de assumir responsabilidades. Para alguns, o momento pode ser bom, para reafirmação de suas metas, balanço positivo da vida e coisa e tal. Para outras, o balanço pode não ser assim tão positivo, fazendo com que a pessoa passe por turbulências em sua vida pessoal, profissional. (Peço perdão a estudiosos de Astrologia pela minha explicação, como já disse, não domino o assunto). Pois bem, outro dia no blog de uma amiga li que o "retorno de Saturno" dela estava sendo difícil, coisa e tal e aí procurei pensar um pouco sobre o meu. Fala-se que as tais mudanças devem ocorrer entre os 28 e 30 anos de idade. Este ano faço 30, e realmente esse meu último ano e meio tem sido bem tumultuado, no campo pessoal e profissional. Algumas transformações, algum crescimento pessoal realmente aconteceram. Tipo dessas coisas que são muito mais fáceis de serem vistas e entendidas depois de já terem acontecido. Pareceu a mim um bom exemplo de que não importa se acreditamos ou não nas coisas, elas realmente podem influenciar em nossas vidas. Acho que isso vale para um pouco de tudo, religião, influência da energia, do otimismo em nossas vidas, e também da astrologia... Lembrei-me da canção citada acima, e o "...decidi começar a viver" fez muito sentido, ao menos na minha experiência pessoal, e de algumas experiências de que fiquei sabendo. Pelo sim, pelo não, espero estar preparado para quando Saturno chegar de novo, lá pelos meus 58 anos... tá looooonge...

Imagem original em fpsoftlab.com

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4.6.06

Crônica em uma grande cidade

Aconteceu em São Paulo, mas acho que poderia ter acontecido em qualquer outra grande cidade brasileira. Bairro de classe alta, uma padaria bem freqüentada, diversos carros estacionados na frente, no estacionamento na calçada. Normal. Um carro chega, não há vagas, então ele estaciona na frente, fechando a saída de outros dois. A motorista desce e entra na padaria. Instantes depois, uma outra motorista, dona de um dos carros cuja saída estava trancada, sai da padaria. O rapaz que toma conta dos carros na frente da padaria se oferece para ir procurar a dona do outro carro. "Não precisa.", ela responde. "Se parou assim, deve ser rápido, vou esperar, obrigada.". Entrou no carro e esperou. Realmente, a outra saiu rápido. Mas, ao entrar no carro, o celular dela tocou. Ao invés de tirar logo o carro e atender depois, fica na porta do carro falando tranquilamente ao celular. A outra motorista, notando que poderia demorar, desce do carro e pergunta se ela poderia retirar o carro, que ela estava precisando sair. Até aqui, nada anormal, a moça ao celular poderia não ter percebido que estava atrapalhando, estar desatenta, sei lá. Mas a resposta dela foi um pouco diferente. "Ah, você precisa sair?", levantou-se do carro, e com a chave na mão, dirigiu-se ao carro da outra mulher e riscou a lateral do mesmo. A reação da outra, educada e contida até então, foi a seguinte: puxou a "folgada" pelo soutien (isso mesmo!), jogou-a de volta para dentro da padaria, e pediu para a moça do caixa chamar a polícia. Ficaram lá dentro batendo boca até a polícia chegar, e foram levadas para registro de queixa, para desespero do rapaz que olhava os carros, que ficou com os mesmos lá, parados e esquecidos.
Fiquei pensando numa reação mais estapafúrdia do que a de riscar um carro por um motivo tão fútil. Que fique claro, como desde o início desse relato, que se tratavam de pessoas educadas, com dinheiro, não era nenhuma periferia ou bairro popular. É fantástico como o problema tão falado da violência pode aparecer de diversas formas diferentes, talvez por algumas pessoas se acharem superiores, melhores do que outras sob algum aspecto e imaginar que podem simplesmente ignorar a vida em sociedade, conceitos mínimos de convivência. Pensar em mudar o macro sem mudar o micro é fácil, falar que o mundo não tem conserto se não consertamos nossas atitudes, nosso pequeno universo, nosso cotidiano. Não tem como. Lembrei-me de uma coisa dita pelo Renato Russo em um show: "Para mudar o que tá errado lá fora, é preciso primeiro consertar nossas próprias vidas". Não sei se a frase foi exatamente essa, mas a idéia é por aí...

(nota: não presenciei a cena, foi relatada por uma pessoa que estava no local.)

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24.5.06

Histeria coletiva II - conseqüência

Saiu na folha, dia 21... sem comentários...

Em favela, Rota 'dá dura' até em crianças

A garotinha de três anos mal sabe falar. Mas a palavra "polícia", pronunciada pela reportagem em uma visita-surpresa à creche improvisada em um barraco na favela dos Pilões (zona sul de São Paulo), faz a menina -olhos negros, grandes e redondos, e penteado maria-chiquinha- ter uma reação surpreendente: ela se aproxima da parede, põe as mãos para trás e abaixa o rosto enquanto repete: "Poliça, poliça".
A mulher que cuida das crianças pede ao menino de cinco anos que explique o que acontece. Ele diz: "A polícia entrou aqui, mandou todas as crianças encostarem na parede desse jeito e falou que levaria todos nós para a Febem se a gente não contasse onde estavam escondidas armas e drogas". O garoto se juntou à menininha, mãos na parede. Mais sete crianças repetiram o ato.
Uma jovem de 12 anos conta que o irmão de dez andava na semana passada por um beco quando um PM ofereceu R$ 1 em troca de informações: "Onde moram os bandidos daqui?", perguntou o policial.
"Agora, veja a tragédia que podia ter acontecido se o menino resolvesse falar alguma coisa para pegar o R$ 1", diz a avó, que tinha ido à creche, vinda do trabalho como doméstica, para pegar as crianças e levá-las ao barraco da família.
Na última quarta-feira, às 23h30, os becos da Pilões mancharam-se de sangue. Uma incursão da temida Rota acabou com três mortos.
Idosos, crianças, mulheres, adolescentes, homens e mulheres, um total de 78 pessoas -contadas uma a uma-, fizeram questão de acompanhar a Folha pelas ruelas escuras e pelos becos da Pilões na tarde e noite de quinta-feira.
Queriam mostrar o caminho que os jovens mortos teriam percorrido até o momento em que foram obrigados pelos PMs a se deitar de bruços no chão de uma área com menos de 16 m2, chamada de "campo de futebol", para receber os tiros.
O nome "campo de futebol" é uma relíquia da época em que a Pilões ainda tinha grandes áreas livres. Hoje, o "campo" está ocupado por casas de tijolo baiano, grudadas umas às outras -só sobrou a pequena área onde os rapazes teriam sido chacinados pelos PMs.

*Pedido de misericórdia*
A moradora de uma casa colada ao "campinho" conta: "Um dos meninos pedia: "Pelamordedeus, não me mata, deixa eu ir embora'". Os quatro filhos dela, pernambucana, doméstica, que ganha dois salários mínimos por mês e acorda às 5h para trabalhar na Vila Mariana, já dormiam. A menorzinha, oito anos, acordou no meio da confusão e se assustou com os pedidos de misericórdia.
"Eu fiquei com medo de eles matarem minha mãe também", disse a menina. "E chorei na hora em que eles atiraram. Minha mãe falou pra eu não chorar, que, senão, os homens matavam a gente também."
"Cuidado aí", advertem a reportagem. Alguém num barraco acima (é um declive) começou a tomar banho -o corregozinho de água e sabão começou a molhar os pés de todos.
Os mortos chamam-se Cristiano Augusto Rodrigues, 28, e os irmãos Jefferson do Carmo Pereira, 27, e Rogério do Carmo Pereira, 24.
Um primo de Cristiano dá a ficha: "Ele sofria de epilepsia. Tinha quase 30 anos, mas era como uma criança", diz, referindo-se a um retardo mental. "Tomava remédios e fazia bico em reciclagem de plástico."
Jefferson e Rogério eram metalúrgicos desempregados. Nos últimos tempos, atuavam como vigias noturnos em um estacionamento vizinho à favela. Ganhavam R$ 600 por mês, sem carteira assinada. Entravam às 23h30 e saíam às 8h30.
Segundo a mãe dos jovens, 46, foi o patrão quem arcou com os custos do enterro, feito em urnas de padrão "nobre", na classificação do serviço funerário municipal, ao preço de R$ 1.259 cada uma. "A gente não tinha condições", disse a mulher. No velório dos filhos, ela se jogou sobre o caixão de Robson, a janelinha aberta sobre o rosto do rapaz. Soltou um grunhido gutural, antinovela da Globo, o som do desespero.
A dona de um bar na favela disse que, na noite em que morreram, os rapazes passaram pelo estabelecimento dela para tomar cerveja. "Quando saíram para ir trabalhar, deram o azar de cruzar com a Rota."
"Os policiais chegaram à favela pela rua que margeia a linha de transmissão da Eletropaulo. Lá, recolheram o Cristiano. Foram subindo a favela e catando quem encontravam."
Os soldados perguntaram aos rapazes quem tinha "passagem". Rogério disse que, sim, teve uma bronca com a polícia. Passou um mês preso, por roubo de dois maços de cigarro em um posto. Segundo vizinhos, os demais nem chegaram a responder. Os PMs descarregaram as armas neles.

*"A Rota apaga"*
"A mãe dá à luz, a Rota apaga." O dístico, relata um jovem, soldado do Exército e morador da favela de Heliópolis, vizinha à Pilões, é gritado pelos policiais toda vez que invadem a área. Outra frase de efeito moral é "Deus cria, a Rota mata".
Todos os moradores entrevistados, pessoas que estavam nas ruas e vielas durante a visita-surpresa da Folha, ou que foram saindo de suas casas, não precisaram de estímulo para falar. Queriam apenas não ser identificados na reportagem -medo de represálias dos policiais. Todos narraram cenas do terror rotineiro que lhes é imposto pelos soldados da PM.
"Eu já tive de trocar três vezes a porta de casa. É que os policiais mandam deixar a porta só encostada. Se estiver trancada, eles derrubam a pontapés."
"Minha casa tem dois portões de ferro. Não é contra bandido, aqui ninguém rouba ninguém. É pra proteger da polícia." Três mulheres e uma adolescente acusaram a polícia de abordar as que chegam do trabalho ou da escola, chamando-as de "puta", "vagabunda" ou "vaca". "Já fizeram isso comigo; eram cinco da tarde e eu estava voltando da escola", diz uma menina de 12 anos.
Um operário conta que policiais arrombaram sua casa para pegar uma camisa e, com ela, limpar os sapatos. "Eu fui lá reclamar na delegacia, mas me disseram que eu esquecesse: polícia não faz BO [boletim de ocorrência] de polícia."
"Eles querem fazer todo mundo acreditar que aqui [na favela] só tem bandido, PCC, mas não é assim. Os caminhões das Casas Bahia, da Marabrás, entram sempre aqui e nunca foram roubados."
"Essas lâmpadas da rua: de noite, a gente tem de desligar. Se eles [policiais] entram e encontram as luzes acesas, arrebentam com tiros. Olha só essa luminária [e aponta para uma, esburacada, sem lâmpada]."
No enterro dos irmãos, sexta-feira, às 17h40, uma parente, estudante de direito, reclamou: "A polícia mata uns jovens bestas e sem futuro como eles, enquanto o bonzão do PCC [refere-se ao líder Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola], fica no bem-bom, falando em celular, recebendo visita e dando entrevista -como se fosse cantor popular. As coisas estão de cabeça para baixo, não é?"

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16.5.06

Histeria coletiva

Pânico generalizado... terror... a pior parte é de se ter um inimigo sem rosto, oculto, não identificado, pode ser qualquer pessoa na esquina, podem ser ocupantes do carro à sua frente. O grande objetivo deles não era matar policiais. Era criar o pânico, mostrar a sua força. E mostraram. Uma guerra, onde não se conhece os inimigos, qualquer sombra pode ser o inimigo, passamos a temer não só os bandidos, mas a polícia, que está acuada, ameaçada e sem ter muito como agir. Um carro com quatro homens dentro pode ser uma ameaça, como decidir em uma fração de segundo? Atirar? Perguntar? Avisar? Pânico instaurado, estava eu circulando às 8 da noite numa cidade fantasma: tudo fechado, pouquíssimos carros e pessoas na rua, e me veio aquela sensação horrível, "eles conseguiram"...
Uma discussão que rolou durante o dia em todos os lugares, já vieram comentários do tipo "tem que matar todos esses vagabundos", "dar um sumiço nesses que já se sabe que são os chefes", e por aí vai... Então... é justamente esse tipo de raciocínio que devemos evitar, na minha opinião... vivemos num estado democrático de direito, e existem instituições que devem manter a ordem, instituições que julgam e instituições que aplicam as punições. A idéia mais simples e imediata de "dar sumiço", ou "baixar o cacete" nos torna ao mesmo tempo juízes e carrascos, o que no estado de direito me parece completamente impraticável. Faz-se necessário a revisão e modernização das instituições, impedir que as coisas cheguem novamente a esse ponto. Modernização dos presídios, para impedir armas e celulares, maior capacitação e remuneração para os profissionais do sistema carcerário e policial, acompanhamento pelo ministério público das pessoas envolvidas (advogados, carcereiros, policiais - pois alguns destes colaboram para "abastecer" os presos), idéias existem aos montes. Na Itália no início dos anos 90 foram tomadas diversas medidas para desmantelar o crime organizado, sem mexer nas liberdades civis. Falta vontade política e coragem para bancar mudanças como estas.
Hoje o dublê de governador em uma das poucas declarações dadas, soltou essa: "Precisamos que a Justiça nos permita escutar as conversas entre os delinqüentes e seus advogados". Uma temeridade como essa seria terrível, onde estaria o limite numa situação dessas? A garantia do direito de defesa é algo que deve ser inquestionável, sob quaisquer circunstâncias, ao menos eu penso assim. De outra forma, estaríamos todos à mercê do Estado, calculem os abusos que isso geraria.
É preciso fazer algo, realmente... mas é preciso serenidade para evitar nos levar pela mídia, tomarmos decisões e criarmos juízo de maneira impetuosa, no calor dos fatos... passada a histeria coletiva das últimas horas, antes de tudo é preciso manter a cabeça no lugar... e lembrar que existem outros problemas, que geram a violência, como a desigualdade social, educação... urge que nesse país se crie uma cultura de que resolvendo esses problemas hoje, lidamos com o cerne do problema maior para as gerações que virão... para que elas não passem pelo que passamos hoje...

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8.3.06

Mulheres...

Mulheres, mulheres... não podia deixar de escrever algumas linhas nesse dia dedicado a elas... em especial a essas três pessoas maravilhosas com as quais tenho o privilégio de conviver: A Ana, minha esposa, companheira, amiga, uma pessoa fascinante e apaixonante, que têm me ensinado muito sobre o conceito de amor ao longo desses quase doze anos de convivência; Liliana, minha mãe, a quem em poucas vezes tive a oportunidade de dizer o quanto a admiro por tudo que ela é, por tudo que construiu, conquistou e continua conquistando e sendo; Renata, minha irmãzinha mais nova, que andou me surpreendendo quando de repente, cresceu, virou uma mulher espetacular, forte e surpreendente em diversos aspectos, que estou reaprendendo a conhecer... Mulheres que me conhecem, me respeitam em minhas escolhas, entendendo-as ou não... por tudo o que são, por tudo o que representam, amo vocês, obrigado por serem as mulheres que são, e claro, parabéns pelo dia de hoje...

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5.3.06

O porquê...

Pois é... a pergunta é, por que motivo escrever um Blog? Sempre mexi bastante com Internet, sempre me interessei bastante por quase qualquer coisa nova que aparecesse, queria sempre ficar por dentro, saber do que se tratava, aprender a mexer... a primeira vez que ouvi falar de Blogs, foi o de um colega de faculdade, que inclusive largou a engenharia para fazer editoração... a página era bem legal, ele a mantém até hoje aqui. Depois, minha irmã, que era meio alheia às coisas da Internet, rendeu-se completamente e construiu o seu próprio blog. Enfim, acabei achando que poderia ser um espaço legal para reflexões, não importando muito o quê e nem para quem, simplesmente escrever, e ultimamente me senti especialmente motivado para colocar isso em prática. Vou manter esse espaço com coisas que estou vendo, pensando e acompanhando no momento... esportes, política, música, notícias... o que passar pela minha cabeça, vou colocando... inserido como um espaço a mais no meu Canto Virtual, outro espaço que criei meio despropositadamente, sem ter muita preocupação em quem vai ver ou deixar de ver... bom, por hoje é só, acho que está "inaugurado" esse novo espaço...

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