6.10.08

Ensaio sobre a cegueira


Eu li esse livro, e gostei muito. Se não me engano foi o primeiro livro do Saramago que eu li, e eu - assim como muitas pessoas - o julgava como uma estória muito difícil de ser filmada, pela densidade do texto, pela forma da narrativa, e pela própria estória em si, que conta uma situação onde as pessoas, de uma hora para outra, começam a ficar cegas, uma chamada "cegueira branca", aparentemente sem motivo, passam a enxergar tudo branco, mais nada... Uma fábula muito bem montada a respeito da dignidade humana, da hipótese que se percam as noções de humanidade, sociedade e se voltem a instintos básicos de sobrevivência, o que os aproximaria muito mais a animais do que ao que entendemos por seres humanos.
O filme foi uma surpresa muito positiva para mim, o Fernando Meirelles na minha opinião foi muito feliz ao tentar fazer este filme, e se saiu muito bem. Conseguiu, até certo grau, transmitir as inquietudes e desesperos, angústias que Saramago descreve tão bem através de seus personagens. Uma história atemporal, em uma cidade não definida, que acaba por formar uma idéia de fábula, aquelas estórias de ficção que são feitas para nos fazerem pensar, refletir sobre nossa própria moral e nossa própria humanidade. Um excelente filme, que talvez possa um pouco agressivo para alguns, mas é simplesmente mais uma tentativa de mostrar a vida crua, como ela é.

E muito me espantou a notícia de que a NFB (Federação Nacional dos Cegos) dos Estados Unidos tenha promovido um boicote ao filme(link), com a argumentação de que o filme retrata cegos como 'monstros, incompetentes e depravados' e que a cegueira transformaria pessoas decentes em 'monstros'. Na minha opinião, o filme não é sobre a cegueira. A cegueira é uma metáfora usada para criar a situação e contar uma estória sobre a crueza humana, a que ponto de selvageria seres humanos poderiam chegar em uma situação-limite. Independentemente de serem cegos ou não. É uma poesia dura, sobre a estupidez humana, que, segundo o próprio Saramago, "não distingue entre cegos e não cegos". Mas, como disse, é uma estória forte, densa, potencialmente difícil de ser entendida e absorvida, mas eu esperaria que em nenhum momento pesasse sobre ela a acusação - infundada, ao meu ver - de ofensa aos deficientes visuais. Não acredito que pessoas assistam ao filme e saiam de lá com a impressão de que cegos sejam 'monstros, depravados, desajustados, etc'. E sim levem talvez a imagem de quão longe de qualquer sinal de humanidade e dignidade pode chegar uma pessoa - cega ou não, é irrelevante - quando levada a uma situação que lhe aproximaria tanto de animais, como na estória em questão.

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8.2.07

O caçador de pipas


Sabe aquela sensação de que ao terminar um livro você perde uma companhia, um amigo? estou com exatamente essa sensação depois de terminar essa leitura. Normalmente fico assim, mas com esse livro foi de uma forma diferente, mais intensa. Resolvi então escrever a respeito dele. Mesmo que você queira ler o livro, pode ler esse comentário, prometo não estragar a estória. :-)
É uma estória muito humana, em vários aspectos. Narrado em primeira pessoa, conta a vida de um menino, na verdade é um livro que fala sobre amadurecimento, enfrentamento de fantasmas, dúvidas, crescimento, enfim... e o fato de ser contado pela própria pessoa nos dá muito mais possibilidades de imaginaro que outros personagens estariam vivendo e pensando, e que não é dito - e nem pode - pelo narrador. O livro me levou a pensar em várias coisas a respeito de como pode ser difícil e doloroso crescer, tomar contato com nossos fantasmas, nossas experiências de quando éramos crianças, quando tínhamos tantas certezas, sem nem saber que para as crianças não é permitido ter certezas. E é fantástico como algumas delas podem permanecer, nos cegando e nos mantendo escravos de nossas próprias fantasias, medos, justamente quando mais precisamos nos livrar delas. Hoje após vários processos comigo mesmo, consigo enxergar tanta coisa pelas quais poderia ter passado de maneira mais leve, mais tranqüila. No caso do livro, o personagem protegia-se na figura do pai, na figura de pessoas mais fortes. No meu caso, acho que como grande parte das crianças, estava muito ocupado esperando o tempo passar, querendo crescer, virar adulto e simplesmente perdia algumas dessas coisas. Mas acho que não existem caminhos certos ou errados, simplesmente trajetórias diferentes, cada uma com suas coisas boas e ruins, dores e risos, belezas e tristezas... exemplos dos quais esse livro está repleto...

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