17.11.08

Vicky Cristina Barcelona

Esse é o último filme do Woody Allen. É um filme que trata de algumas questões que sempre nos rondam, que sempre permeiam nossas vontades, nosso imaginário de uma forma ou de outra. A eterna busca pela felicidade, seja ela duradoura em um futuro totalmente planejado e executado passo a passo, ou um pico de felicidade fugaz, curto porém intenso e verdadeiro. Conta a estória de duas amigas passando uma temporada em Barcelona. Uma estória de envolvimento, paixão, de escolhas e dúvidas. Nenhuma grande novidade - poderia se dizer -, mas a doçura e leveza com que as situações são colocadas quase nos fazem esquecer a seriedade e sofrimento pelo que as personagens passam. Questionamentos sobre traições, sobre o certo e o errado, o medo de tomar decisões erradas, o arrependimento, a dúvida. A eterna fronteira entre o amor e a paixão, existe uma paixão verdadeira que possa ser intensa eternamente, ou para se viver algo assim é necessário que seja intenso e fugaz? Vale a pena trocar uma vida inteira de segurança mas sem intensidade por alguns momentos breves, porém verdadeiros? Seremos capazes de reinventar uma relação, uma estória a dois, quantas vezes forem necessárias, para sentirmos a completude do amor?
A interpretação de Penélope Cruz, na minha opinião, é um presente a mais. Um filme sério, porém leve, bonito e tocante.

(foto: divulgação)

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6.10.08

Ensaio sobre a cegueira


Eu li esse livro, e gostei muito. Se não me engano foi o primeiro livro do Saramago que eu li, e eu - assim como muitas pessoas - o julgava como uma estória muito difícil de ser filmada, pela densidade do texto, pela forma da narrativa, e pela própria estória em si, que conta uma situação onde as pessoas, de uma hora para outra, começam a ficar cegas, uma chamada "cegueira branca", aparentemente sem motivo, passam a enxergar tudo branco, mais nada... Uma fábula muito bem montada a respeito da dignidade humana, da hipótese que se percam as noções de humanidade, sociedade e se voltem a instintos básicos de sobrevivência, o que os aproximaria muito mais a animais do que ao que entendemos por seres humanos.
O filme foi uma surpresa muito positiva para mim, o Fernando Meirelles na minha opinião foi muito feliz ao tentar fazer este filme, e se saiu muito bem. Conseguiu, até certo grau, transmitir as inquietudes e desesperos, angústias que Saramago descreve tão bem através de seus personagens. Uma história atemporal, em uma cidade não definida, que acaba por formar uma idéia de fábula, aquelas estórias de ficção que são feitas para nos fazerem pensar, refletir sobre nossa própria moral e nossa própria humanidade. Um excelente filme, que talvez possa um pouco agressivo para alguns, mas é simplesmente mais uma tentativa de mostrar a vida crua, como ela é.

E muito me espantou a notícia de que a NFB (Federação Nacional dos Cegos) dos Estados Unidos tenha promovido um boicote ao filme(link), com a argumentação de que o filme retrata cegos como 'monstros, incompetentes e depravados' e que a cegueira transformaria pessoas decentes em 'monstros'. Na minha opinião, o filme não é sobre a cegueira. A cegueira é uma metáfora usada para criar a situação e contar uma estória sobre a crueza humana, a que ponto de selvageria seres humanos poderiam chegar em uma situação-limite. Independentemente de serem cegos ou não. É uma poesia dura, sobre a estupidez humana, que, segundo o próprio Saramago, "não distingue entre cegos e não cegos". Mas, como disse, é uma estória forte, densa, potencialmente difícil de ser entendida e absorvida, mas eu esperaria que em nenhum momento pesasse sobre ela a acusação - infundada, ao meu ver - de ofensa aos deficientes visuais. Não acredito que pessoas assistam ao filme e saiam de lá com a impressão de que cegos sejam 'monstros, depravados, desajustados, etc'. E sim levem talvez a imagem de quão longe de qualquer sinal de humanidade e dignidade pode chegar uma pessoa - cega ou não, é irrelevante - quando levada a uma situação que lhe aproximaria tanto de animais, como na estória em questão.

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24.9.08

Linha de Passe



Na semana passada, fui assistir a esse filme, do Walter Salles, muito bom. É um filme que trata de perto do cotidiano de uma família de classe popular da periferia de São Paulo. Não é um filme com grandes tramas, com suspense ou final surpreendente. É um filme sobre a vida normal, dura e crua como ela pode ser, sem rodeios, sem embelezamentos, simples assim. Mostra os adolescentes da periferia sem apelar para o óbvio - e atualmente surrado, de tão batido - envolvimento com a marginalidade, o tráfico. Mostra os adolescentes flertando com o crime em pequenos delitos, sem que isso seja a temática principal do filme, mas sim um detalhe, uma conseqüência pela crueza da vida como ela se apresenta, sem esperança, sem perspectivas... como pode ser difícil crescer nesse mundo quando não lhe são dadas as chances, não lhe é permitido sonhar. Faz pensar no mundo em que estamos, e o que podemos esperar dele se não o transformarmos...
Decididamente, não é um filme "leve", para ser visto como entretenimento puro e simples. Se estiver querendo ver algo com estória bonita e final feliz, decididamente essa não é uma boa escolha... Caso contrário, eu recomendo.

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25.7.08

Nome próprio


Tive a sorte de ir assistir a esse filme em uma pré-estréia, seguida por um bate-papo com o diretor, Murilo Salles. Muito legal, e gostaria de recomendar, além de dizer algumas poucas palavras com minhas impressões a respeito.
Em primeiro lugar, não é um filme sobre um blog. É um filme com a participação de um blog, enquanto janela para a alma de uma pessoa. O filme é forte, pode até ser considerado agressivo - embora eu não tenha achado - em alguns momentos.
Através da sensacional interpretação de Leandra Leal, adentramos na vida e nas percepções de Camila. Camila é menina, é mulher, ao meu ver transita entre esses estados ao longo do filme. As emoções transbordam, remexem-se, tocam. Quase uma ode aos apaixonados, no sentido de viver as coisas com intensidade, com entrega, agarrando-se aos seus sonhos e às coisas em que acreditam. Ela vive, ela sente, ela sofre. A sensação que a câmera propositalmente nos traz é de uma proximidade imensa, como que para sentirmos a intensidade, o transbordamento, a vida pulsando e passando...
Um filme sobre a alma feminina, vista de perto, com suas alegrias, dores, sobretudo com sua intensidade. Se puderem assistir, fica aqui a dica. As salas - não são muitas - em que está em cartaz podem ser conferidas no blog do filme.

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8.7.08

Ode aos desajustados...

Sabe aquele momento em que você se sente meio único, sozinho, meio que sempre na contramão, nadando contra a corrente? Por pensar em desacordo com o tal do "senso comum", o óbvio, o que se convencionou chamar de "normal"...

Fico pensando às vezes quantas vezes às pessoas são levadas a pensar ou agir de maneira diferente do que gostaria por causa de outros. Por conta de ser mais fácil, por conta de não ter que ficar se explicando a toda hora... A todo momento na vida temos que tomar decisões, fazer escolhas... quantas delas nos permitimos decidir do fundo da alma, da forma como realmente pensamos e queremos? Ou é uma escolha profissional, ou a forma como cuidar ou educar os seus filhos, ou escolhas sobre o que fazer com o seu dinheiro, com o seu tempo livre, com a sua vida... Por muitas vezes percebo que as pessoas não entendem os que pensam diferentes, e, de maneira consciente ou não, censuram, julgam, rotulam e ainda - por muitas vezes - tentam vender as suas próprias "escolhas" como as melhores, as "corretas", as "mais adequadas"... algumas pessoas que conheci ao longo da minha caminhada romperam com o "normal" em respeito aos seus próprios sonhos... mudanças tardias (tardias para o ponto de vista "normal", que fique claro) de carreira, outras escolhas firmes porém questionadas por muitos ao seu redor... admiro essas pessoas, pela coragem, determinação e dedicação aos seus próprios sonhos, à sua essência...

Eu particularmente acho que deve ser muito chato fazer tudo certinho, sempre da maneira como esperam de nós, sempre a favor da corrente... acho que sou um pouco daqueles que prefere transgredir, experimentar, inventar... e muitas vezes me decepciono com as reações das pessoas a respeito dos atos das outras... as pessoas são tão diferentes, tão únicas, porque o que serve para uns tantos tem que necessariamente ser o correto para todos? Não faz o menor sentido... E isso acaba me remetendo a um filme que vi já há algum tempo, Into The Wild (Na natureza selvagem, como foi traduzido), que conta a estória real de um rapaz que deseja romper com tudo, sentir-se em sua própria essência, isolar-se de tudo e de todos, e vai... o filme é - na minha opinião - de uma sensibilidade enorme, a trilha sonora excelente (cantada por Eddie Vedder, do Pearl Jam) que me chamou muito a atenção... acho que muitos dentre nós devem se deixar levar, sem perceber, pela corrente, pelo senso comum e deixa adormecido o que se tem de mais puro e verdadeiro. Sentimentos que podem muitas vezes não serem bonitos de serem mostrados ou admitidos, mas que são nossos... obviamente que existem coisas que não podemos fazer ou mostrar, afinal de contas vivemos em sociedade, temos regras a serem seguidas, é óbvio. Mas esse encontro com nossa própria essência, descobrir verdadeiramente o que somos, o que nos serve, o que é nosso e o que não é, acho que pode ser uma experiência ímpar, tremendamente enriquecedora e que pode trazer um aprendizado tremendo... e acho que nunca é tarde para se conhecer, para se entender... resta a cada um fazer essa escolha, escolher seu próprio caminho , suas ferramentas, tomar coragem e... deixar-se levar, nem que seja por instantes, para ver onde iria...

Enfim, era mais ou menos isso que andava rondando minha cabeça, e queria colocar por aqui, dividir com outros e comigo mesmo... como sempre, escrever aqui me faz pensar...


"Quem pensa por si mesmo é livre,
E ser livre é coisa muito séria" - Renato Russo


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6.2.08

A vida dos outros

Ultimamente tenho tido sorte ao escolher filmes para assistir. Taí um filme que tinha tudo para ser meio óbvio (na minha opinião) e surpreende. A trama se passa na Alemanha socialista, e mostra como o Estado mantinha potenciais suspeitos sob estrita vigilância. E como as pessoas que na verdade constituíam aquele Estado (como qualquer estado, sob qualquer regime) podiam interferir - e de fato o faziam - de acordo com suas próprias vontades e convicções. Convicções essas por vezes com raízes ideológicas, por outras com motivos menos nobres. Altera-se o objetivo da instituição que compõem, para o bem e para o mal. Por fim, acaba tratando das relações humanas e suas diferentes percepções, e que naquele contexto interferiu significativamente na vida dos personagens.

A trama é muito bem trabalhada, e a construção psicológica de alguns personagens também, em especial a do dedicado agente convocado para espionar o casal suspeito. O final do filme, ao meu ver, é singelo e tocante. Recomendo.
E saí de lá pensando, como sempre acontece comigo quando vejo um filme bom. Porque filme bom para mim deve ser aquele que te faz pensar algo a mais, que lhe acrescenta algo. Blockbusters que me perdoem, mas conteúdo é fundamental. E fiquei pensando no quanto que uma instituição, seja ela política, religiosa ou de outra ordem, foge dos seus princípios quando os interesses das pessoas que as compõem se sobressaem sobre os interesses maiores, ou comuns. E acho que a própria natureza humana acaba tornando impossível uma instituição coesa, se essa for formada por humanos. E como o contrário até agora não é possível, as instituições são falhas, sempre. Não estou sugerindo que
elas sejam compostas por robôs ou computadores, mas apenas que não podemos colocá-las acima de qualquer suspeita ou julgamento, pois por definição, são sempre passíveis de falhas. A História está repleta de exemplos, e por várias vezes, talvez ela tivesse sido diferente se as pessoas tivessem por vezes pensado no coletivo, pensado como a instituição. Porque em geral - com exceções, claro -, as instituições tinham boas intenções, ao menos na teoria.

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20.1.08

A culpa é do Fidel!


Fui assistir a esse filme, depois de ler sobre ele o que minha irmã escreveu sobre ele. O filme é ótimo, e me fez pensar algumas coisas. A estória de uma menina francesa no início dos anos 70, que tem uma vida de uma família burguesa, excelente aluna de um colégio de freiras. A trama se desenrola quando os pais da menina se tornam ativistas socialistas, fazendo com que a vida da menina mude bastante em função disso. O interessante da estória é que tudo se desenrola a partir da visão da menina (cuja atriz consegue construir uma personagem fantástica), da sua percepção do mundo e das coisas que a cercam. Da mesma forma que em Kamchatka e Machuca, que contam estórias de crianças vivendo a ditadura argentina e o golpe militar no Chile, respectivamente.
Sempre muito interessante colocar as coisas do ponto de vista das crianças, para quem tudo parece sempre simples e direto, quase óbvio. Faz-nos pensar nas contradições da nossa sociedade e nas nossas próprias. No caso da pequena Anna, personagem do filme, ela é uma menina de 9 anos extremamente inteligente, articulada, certamente devido à formação dada muito mais pelos seus pais do que pelo colégio. Extremamente questionadora, fica revoltada quando vê as coisas no mundo ao seu redor saírem da lógica em que sempre funcionaram. Os "barbudos vermelhos" (nas palavras de sua babá, uma cubana exilada anti-Fidel) entrando e saindo da sua casa, a mudança para uma casa pequena, tudo a leva a reclamar e questionar, pedindo as coisas da sua outra realidade de volta. Ao longo do filme ela começa a entender algumas coisas, chegando ao ponto de questionar o pai o porquê de ele ter se omitido e não participado dos protestos de maio de 68. Perguntas que obviamente, nem ele consegue responder direito. Mostra o crescimento e amadurecimento da menina que passa a compreender o mundo por uma outra ótica. Estória linda, tocante. E me fez pensar em como transmitir para nossos filhos uma formação questionadora e ao mesmo tempo lidar com nossas próprias contradições, nossos limites, nossos desencontros que muitas vezes não respondemos para nós mesmos. Tarefa dura essa. Mas depois de pensar, acho que preferiria poder fornecer aos filhos que ainda não tenho essa idéia de que o mundo tem contradições, o mundo precisa realmente ser questionado. Que não façamos desses filhos pessoas e cidadãos que nos repitam, mas que questionem, inventem, mudem e consigam fazer com esse mundo coisas que nós e nossos pais não conseguimos. Esse mundo merece.

(foto: divulgação)

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7.10.07

Tropa de Elite

Como não podia deixar de ser, precisava escrever algo a respeito do filme. Não por obrigação de escrever por aqui, que pelo intervalo entre posts dá para perceber que não é lá uma preocupação muito grande... mas queria escrever por que senti que precisava, depois de pensar um tanto sobre coisas que esse filme e reações a ele me fizeram refletir...

O filme, para quem ainda não viu ou não ouviu falar, mostra como age o Batalhão de Operações Especiais - BOPE, a chamada "Tropa de Elite" da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Policiais teoricamente incorruptíveis e bem-treinados, que se utilizam de tortura, execução sumária entre outros métodos característicos de militares em regimes de exceção. O livro no qual é baseado parcialmente o filme, fala inclusive de corrupção nesse batalhão, coisa sobre a qual no filme não se fala em nenhum momento. O filme, embora extremamente bem-feito do ponto de vista técnico e sob a estética de Hollywood, é, na minha opinião, excessivamente simplista em diversos aspectos, como na colocação feita pelo anti-herói do filme, Capitão Nascimento (Wagner Moura, aliás, excelente no papel), de que "viciado vagabundo é que financia o tráfico", passando longe de qualquer discussão em relação a descriminalização das drogas ou um entendimento maior do que criou e o que mantém aquele cenário. É uma visão de um militar, criado e treinado para simplesmente matar aqueles que ele (juiz e executor) considerar que se colocam contra a verdade e a justiça.

O problema maior no meu ver é a banalização da violência e da "aceitação" das técnicas utilizadas pelo BOPE como plenamente justificáveis. Fala-se muito da reação das pessoas nas platéias que viram o filme, na impressão generalizada de delírio e "torcida" quando um menino é torturado com tapas e um saco de plástico na cabeça, para dar uma informação. Ele não dá a informação, os policiais têm que ir embora, matam o menino gratuitamente. Para mim, a reação da platéia (confirmada por comentários que ouvi de pessoas que assistiram ao filme), é um sinal mais do que claro de que nossa sociedade está doente. O mesmos sistema que cria personagens como o Capitão Nascimento também gera esse sentimento generalizado de que isso é certo, de que todo pobre que mora na favela é em potencial um bandido, e cuja vida vale menos do que nada. O Capitão Nascimento, que se julga acima da lei e do arrependimento ("para um oficial do BOPE, o remorso é um sentimento muito perigoso", ele diz), justificando-se a todo momento por estar em estado de guerra, foi formado pelo sistema, o mesmo sistema que corrompe a polícia e nega oportunidades aos desfavorecidos, criando poderes paralelos em mundos paralelos, onde a moral ganha novos contornos com inversões de valores. Afinal , quem protege e ajuda (até financeiramente algumas vezes) a comunidade não é o poder público ou a polícia, mas sim o traficante que controla o local. E é interessante que no momento em que ele, Capitão Nascimento, precisa se tornar humano, com o nascimento do filho e a necessidade de estar próximo da família, ele precisa se desligar do BOPE. O BOPE não pode ter policiais humanos. Os "fracos" lá não entram. E no sentido contrário, o policial que está sendo treinado para substituí-lo, Mathias, só está pronto, só se torna um "policial de verdade" quando justamente perde seu lado humano, de estar se relacionando com outras pessoas.

E a mensagem que o filme passa (ao menos para mim, não sei se era a intenção do diretor) é isso, de que temos uma sociedade doente que cria figuras como essa e são - para meu espanto, sinceramente - apontados como hérois, como aqueles que não se renderam à corrupção ou se omitiram. Simplesmente "vão para a guerra", onde qualquer atitude é justificável. Não sei se o que me preocupa mais é saber que essas coisas (tortura, execuções e abusos por parte daquela que seria a "elite" da polícia) acontecem no nosso cotidiano, ou saber que isso é visto por grande parte da população como um ato de heroísmo e justiça. Tenho realmente muito medo do futuro em uma sociedade onde a maioria da população possa vir a acreditar que a solução seja realmente a proliferação de batalhões como esse, para acabar com todos os problemas de segurança que possam existir...

(foto: divulgação/montagem)

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3.12.06

O Maior Amor do Mundo


Hoje assisti a esse filme do Cacá Diegues, "O maior amor do mundo". Saí bem satisfeito, tocado pelo que tinha visto, me agrada um filme do tipo em que as coisas não são explicadinhas, que te deixa livre para pensar, viajar, ou como disse o próprio diretor: "Nosso dever de artistas, de cineastas, não é simplificar as coisas. É complicá-las.". Analisando a estória pura e simplesmente, é a volta ao Brasil de um brasileiro que vem receber uma premiação importante, ao mesmo tempo em que se vê à beira da morte e tenta buscar suas raízes, suas essência na figura da mãe biológica que nunca conhecera. Prato cheio para se construir um roteiro previsível e cheio de clichês, mas felizmente não foi o caso. O drama pessoal de se encontrar no fim da vida e percebê-la estéril em vários aspectos, a frustração, os seguidos choques de realidade ao encontrar o mundo feio que poderia ter sido o seu, se os acontecimentos tivessem sido um pouco diferentes. O contato dele com esse mundo, que pode ser um renascimento sob um determinado ponto de vista, fica como uma busca pela própria capacidade de amar, e deixa a pensar qual é o maior amor do mundo, na verdade no caso dele, a busca , conhecer o que seria o próprio amor, nunca experimentado ao longo da vida. Faz pensar sobre nossa própria vivência sobre o amor, o amor de namorado, o amor de pai, de mãe, em contraste com a crueza da vida que o fillme faz questão de não esconder. Um filme sobre a vida, a morte e o amor... realmente tocante...
O resto, fica a ser descoberto e pensado por quem puder ir assistir... ;-)

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18.9.06

Anjos do Sol


Esse é um desses filmes que deixam a gente com um sentimento meio difícil de se explicar, um nó na garganta, um embrulho no estômago, uma vergonha incomensurável da raça humana, capaz de coisas tão baixas, tão degradantes como as descritas nesse filme. Uma sensação horrível ao saber que se trata de situação real, atual. O filme conta a estória de uma menina, como muitas outras, que ao longo da curtíssima vida (12 anos) é vendida pelo pai, é comprada posteriormente em um leilão de moças virgens para depois depois ser levada a um bordel no meio de um garimpo. Submetida a violências de toda ordem, humilhações, sofrimento, o direito à vida arrancado com toda a força, como se dizendo que a vida, como a conhecemos, não foi feita para ela, para meninas como ela. É a ficção mostrando a realidade cruel, sobre a qual de certa forma nos é muito cômodo dizer que "é melhor nem saber"... difícil ficar indiferente ao saber que vidas podem valer tão pouco assim... E ver a infância, a inocência igualmente arrancadas, e completamente à margem do alcance do Estado, da sociedade como um todo que deveriam ser responsáveis por lhes proteger e assegurar esses direitos. Infelizmente, nenhuma ponta de esperança aparece no final desse túnel...

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12.9.06

A noiva síria


Depois de um bom tempo sem assitir a algum filme realmente tocante, que valha a pena de ser recomendado e comentado, assisti recentemente "A Noiva Síria". Uma estória contada de uma maneira muito humana, tocante, mas com humor. Narra uma situação simplesmente impensável para a nossa sociedade ocidental, mais uma vez vivida no oriente médio, tendo a questão judaico-muçulmana como pano de fundo. Uma família mora na região entre Israel e Síria, nas Colinas de Golan, um local que é reclamado pelos dois países de forma que as pessoas dali não têm uma nacionalidade definida. A noiva em questão vai casar-se com um primo que não conhece, mas que vive na Síria. Como a área onde mora é controlada militarmente por Israel, a moça só pode atravessar a fronteira para a Síria uma única vez, não podendo mais voltar e portanto nunca mais vendo a sua própria família. Todo o ritual do casamento é vivido portanto estando os noivos em lados diferentes da fronteira, os parentes se falam através de megafones porque não lhes é permitido atravessar. Seria realmente cômico ver a cena do pai "encontrando" com o filho separados por metros e metros de arames farpados e soldados israelenses. Seria cômico, não fosse a idéia de que isso acontece realmente, por mais surreal que possa parecer. E apesar disso, mostra-se a alegria de viver, de festejar desse povo tão lutador para quem o fato de simplesmente chegar vivo ao dia de amanhã é um ato de resistência. Quem puder, assista.

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29.5.06

What the bleep???

Outro dia assisti a um filme muito, muito interessante, queria escrever algo sobre ele. O filme se chama "What the bleep do we know", é uma espécie de documentário que se desenvolve contando a maneira como a Física Quântica descreve o que temos por realidade, o universo que nos cerca. Com meus parcos conhecimentos de Quântica obtidos na faculdade de engenharia, me envolvi muito com o filme, e acredito que não deva ser muito diferente para uma pessoa que não conheça nada do assunto. Como diz um dos diversos cientistas que dão testemunhos no filme, ali não se explica nada, não há nada para ser realmente entendido. Eles descrevem de que forma que interferimos (ou na verdade, temos o potencial de interferir) na realidade que nos cerca, apenas nos baseando na iteração das partículas de que somos compostos com as outras partículas que compõem o universo. O conceito é meio absurdo, mas chega a ser de certa maneira uma explicação científica para vários conceitos presentes de maneira constante na filosofia de algumas religiões orientais, de que nossa paz de espírito, nosso otimismo pode contribuir para que coisas boas aconteçam. Chegam a citar alguns exemplos como uma experiência com centenas de pessoas meditando conjuntamente numa determinada grande cidade, e o índice de crimes na cidade baixou assustadoramente neste dia. Ou outra, como uma experiência com pensamento conseguiu mudar a forma das partículas de água vistas no microscópio. Fica a impressão de que nada é apenas coincidência, que tudo nesse universo faz sentido e pode ser explicado pela ciência, de alguma forma. Mas ao mesmo tempo nos traz a sensação maluca de o quanto longe estamos de conhecer e entender tudo isso... Um filme que se explicado pode parecer meio maluco, mas mexeu muito comigo, e m e fez pensar que tanto do que entendemos como realidade pode ser relativo, e muito, muito pode estar escondido... Aos curiosos e corajosos, chequem no site do filme, e boa viagem: What the bleep do we know?

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13.4.06

Paraíso.. agora?

Nessa semana assisti ao filme "Paradise now"(Paraíso agora), um filme palestino que conta a estória de homens-bomba, mas muito diferente da maneira como os ocidentais costumam mostrá-los. O filme é bem-feito, um roteiro simples e direto, mas consegue mostrar muito do lado humano das pessoas, mostrar o quanto se sentem perseguidas, oprimidas, e as dúvidas e medos inerentes a pessoas que em determinado momento decidem por acabar com suas próprias vidas.
A trama se desenvolve de maneira angustiante, de forma a, se o espectador ocidental conseguir se livrar de pré-conceitos a respeito, pode até justificar as atitudes deles, guardadas obviamente as devidas proporções.
Particularmente, eu acho muito difícil para nós ocidentais - e talvez brasileiros em particular - de aceitar a idéia de uma guerra que dure por tantos anos, por tantas gerações porque pessoas diferentes acreditam ter direito - fornecido por Deus em pessoa - a um mesmo pedaço de chão.
E mais ainda, qualquer coisa, qualquer ação é justificada de ambos os lados por isso. Tanto o terrorismo de estado praticado por Israel quanto o terrorismo "desesperado" dos palestinos. Os mártires conseguem um status, serem valorizados e saber que suas famílias conseguirão um amparo impensável de outra forma. Numa sociedade mantida marginalizada pelos israelenses, acaba sendo uma das pouquíssimas possibilidades de se conseguir "algo".
Convém sempre lembrar que o Estado de Israel foi o primeiro a digamos, recomeçar essa briga no século passado, quando foi criado pela ONU e depois simplesmente ignorou suas fronteiras e desconsiderou a existência do legítimo Estado Palestino. Talvez se conseguíssemos imaginar essa situação extrema, de se sentir completamente abandonado, invadido, desumanizado e tratado com tanto desprezo conseguiríamos imaginar o ódio
que isso geraria por anos e anos, de geração em geração... matar o pai de outro porque o avô dele matou meu pai, ou simplesmente porque o povo dele mata gente do meu povo... acredito que guerra nenhuma vai adiante sem estupidez, e nesse caso a estupidez aflora em ambos os lados. Nenhum dos dois consegue ceder porque não consegue conter seus próprios radicais, nunca chegando a um consenso... um problema de séculos, que talvez o ocidente ignorasse por completo - como igora dezenas de
conflitos idênticos na África - se aquela não fosse, além de Terra Santa, uma terra tão rica em petróleo. Se um dia ele perder o valor, provavelmente Washington os deixaria, para matarem-se uns aos outros.
Uma desmilitarização e internacionalização da chamada Terra Santa talvez fosse uma solução... mas falta alguém para bancar essa idéia seriamente. Os judeus americanos provavelmente não deixariam que os Estados Unidos o fizessem, então...
Esperemos... e torçamos para que as gerações vindouras possam ser menos estúpidas e mais eficientes do que nós fomos... para o bem de todos... e que os jovens palestinos consigam de alguma forma o seu paraíso aqui, entre nós, sem a necessidade de morrerem por essa causa em busca do prometido paraíso...

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17.3.06

Soy Cuba...

Engraçado como as coisas às vezes dão tão certo e tão errado ao mesmo tempo. Fui ver um documentário brasileiro sobre um filme dos anos 60, uma produção cubano-soviética chamada 'Soy Cuba'. O filme curiosamente não foi aceito à sua época, nem em Cuba e nem na URSS. No início da década de 90, foi descoberto e relançado por dois grandes diretores dos EUA, Coppola e Scorcese, que alçaram o nome do diretor soviético Kalatozov (que inclusive teve prestígio e premiações importantes antes de 'Soy Cuba') ao status de gênio visionário, e esse filme ao status de 'clássico', 'obra-prima'. À época, consumiu muito dinheiro soviético e devia ter sido concebido como um épico, uma peça de propaganda socialista. O documentário, concebido quase que como um making-of do filme, mostra o envolvimento apaixonado de toda a equipe, que esteve envolvida no projeto durante 2 anos, o esmero impecável como eram feitas as coisas, e traz imagens magníficas do próprio filme. Do ponto de vista técnico, de fotografia em especial, o filme é realmente fantástico, seqüências geniais e imagens simplesmente únicas, indescritíveis. O documentário traz em vários momentos um clima nostálgico de cunho político, embora saliente de maneira muito mais enfática as questões artísticas.
Independentemente de questões político-ideológicas, o filme é algo que merece muito ser apreciado, em especial por quem gosta de cinema. E, para pensar, uma colocação feita por um do membros da equipe, após saber que o filme foi 'descoberto': "Quando era um apoio necessário, foi esquecido, só foi valorizado após tornar-se peça arqueológica".

PS: Maiores informações sobre o filme podem ser vistas no site do IMDB: o filme original e o documentário, ambos premiados, o documentário esteve na mostra de SP em 2005, inclusive. Não sei o quão difícil pode ser encontrar cópias desses filmes, principalmente do original...

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