11.9.09

JN, 40 anos...


Reproduzo aqui texto que li no Observatório da Imprensa. Original aqui.

Cada um conta o que quer contar

Muitos leitores devem ter notado que a TV Globo passou as duas últimas semanas celebrando o aniversário de 40 anos do Jornal Nacional. Desde a sua criação, o telejornal global é, de longe, a principal fonte de informação de milhões de brasileiros.
William Bonner e Fátima Bernardes fizeram questão de nos lembrar das tantas glórias conquistadas pelo JN e pelo jornalismo da emissora. Matérias intermináveis (intermináveis mesmo, de quase 15 minutos) exaltaram os feitos do telejornal. Os mais antigos repórteres (os que certamente melhor cumprem ordens do patrão) foram chamados à bancada e, ao vivo, recordaram as coberturas dos fatos que marcaram a história recente do país.
Telespectadores desavisados, desconhecedores de episódios importantes da vida nacional, talvez até tenham ficado com lágrimas nos olhos.
É fato incontestável que o Jornal Nacional consolidou-se desde a década de 1970 (estreou em 1969) como símbolo do poder das Organizações Globo. Com uma estrutura quatro, cinco ou seis vezes maior do que os telejornais de suas concorrentes, ainda hoje bota medo na maioria dos políticos, que temem ser alvos de abordagens, digamos, pouco simpáticas. Quando as menções são positivas, aí é só festa. Dá até para pensar em vôos mais altos. Símbolo maior desse poder é o fato de seu lobista-chefe ser chamado de "senador" nos corredores do Congresso Nacional. Sem nunca ter sido candidato nem eleito para cargo algum, desfruta de poderes que nenhum parlamentar possui.

Linha de frente
O JN tem todo o direito de comemorar o que bem entender. Aliás, a Globo é perita em se autopromover. Já fez isso em diversas ocasiões e continua a fazer com competência, posando de defensora da cultura nacional e da liberdade de expressão, além da já manjada face "solidária" que os Crianças Esperanças da vida buscam construir.
O perigo iminente disso tudo é que, em um país pouco conhecedor da biografia de seus meios de comunicação, corre-se o risco de reescrever a história. O temor não se faz em vão: como historiadores cansam de afirmar, a memória coletiva muitas vezes é fruto do legado dos mais fortes.
Mas voltemos ao nosso tema. Como era previsível, o JN tratou de lembrar das tantas ocasiões nas quais noticiou fatos da vida política, econômica, cultural e esportiva do país. Esqueceu-se, no entanto(e ao acaso isso não pode ser creditado), de recordar os momentos em que o telejornal global foi ele mesmo sujeito da história.
Ficou de fora da retrospectiva, por exemplo, que o surgimento e fortalecimento da TV Globo deu-se a partir de um acordo ilegal com o grupo estrangeiro Time-Life, que foi inclusive objeto de CPI no Congresso Nacional.
Esqueceram de dizer que a emissora foi criada e se fortaleceu com o apoio decisivo dos sucessivos governos militares. E que seu jornalismo, em especial o JN, ignorou solenemente as torturas, os desaparecimentos e as mortes dos que lutavam contra a ditadura, como se não tivessem acontecido.
O resgate histórico deixou de lado a tentativa de ignorar o movimento pelas eleições diretas nos primeiros anos da década de 1980, assim como a participação da emissora na tentativa mal sucedida de fraude nas eleições para o governo do Rio de Janeiro, com o objetivo de evitar a posse de Leonel Brizola.
A memória seletiva igualmente deu conta de apagar a participação decisiva do JN na eleição de Fernando Collor em 1989, quando a emissora editou de forma canalha o último debate entre Collor e Lula, além de utilizar contra o candidato petista as acusações lunáticas de sua ex-mulher e o seqüestro do empresário Abílio Diniz.
Nos anos seguintes, de forma nem um pouco sutil, foi linha de frente na consolidação da idéia (hoje comprovadamente furada) de que o neoliberalismo e a privatização de empresas estatais eram o único caminho a seguir, impulsionando a eleição e reeleição de FHC à Presidência.

Tapete vermelho
Há ainda uma série infindável de episódios mais recentes que poderiam ser acrescentados à lista, como a cobertura favorável ao tucano Alckmin nas últimas eleições presidenciais. Ao contrário de outras tentativas, a tática não deu certo, graças à multiplicação das fontes de informação e, quem sabe, ao aumento da consciência política das classes menos favorecidas.
Fato é que, ao longo de toda a sua história, a Globo consolidou-se como os olhos e ouvidos da atrasada elite brasileira, cerrando fileiras contra movimentos sociais e quaisquer políticas distributivas. Em Brasília, seu "senador" é sempre recebido com afagos. Tapetes vermelhos se estendem aos seus pés. E assim, políticas que visam democratizar as comunicações do país são enterradas antes mesmo de nascerem.
É normal, compreensível até, que o JN tente recontar a sua própria história. O que não pode acontecer é que a história não contada por ele seja esquecida por nós.



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13.7.09

Travessia da Serra Fina


Sabe aqueles momentos em que você quer, ou precisa, desligar-se do mundo por algum tempo, deslocar-se completamente do contexto das pessoas, lugares e coisas com as quais convive no cotidiano? Pois bem, estava num momento assim. E decidi passar o feriado de 9 de julho (feriado estadual em São Paulo) fazendo a travessia da Serra Fina, em Passa Quatro (MG). Fiquei sabendo (depois) que é considerada a mais difícil travessia do Brasil... Quatro dias caminhando, três dias acampando, andando cerca de 30km, passando pela 4a montanha mais alta do Brasil (Pedra da Mina, 2798 m). Parecia bem desafiador, e algo de que eu estava precisando: cansar o corpo e descansar a mente.
Fui sozinho, mas lá nos juntamos em um grupo fantástico, de 8 pessoas, motivadas para fazer a travessia, com um astral e uma energia muito legal. É muito interessante conhecer pessoas nessa situação, pessoas de bem com a vida, dispostas a compartilhar experiências, a conviver de maneira intensa e próxima à natureza por alguns dias. Mochila nas costas com somente as coisas indispensáveis no alto da montanha (o que não é pouco, rs), saímos para subir a montanha, eu, Dani, Fabi, Adriana, Fernando, Márcio, Cesar e Verner, além dos nossos guias. No primeiro dia, subida até o Pico do Capim Amarelo, onde encontramos outros grupos. Seguimos por várias encostas com vistas maravilhosas do vale e da cidade de Cruzeiro ao longe. Muito vento, de cerca de 30 km/h, que foi quando perdi meu boné, que hoje descansa na montanha... Abastecemos de água no último ponto possível antes da Pedra da Mina (que só alcançaríamos no dia seguinte), cada um levando cerca de 4 litros na mochila. Muito companheirismo na caminhada, o pessoal ia se conhecendo, as refeições eram uma curtição à parte: macarronada na primeira noite, quando acampamos praticamente sozinhos no chamado "Maracanã". Depois ficamos sabendo que todos os outros grupos abortaram a subida para a Pedra da Mina por conta do mau tempo que se desenhava. Mas lá estávamos nós, prontos para prosseguir no segundo dia. Depois da primeira noite acampados, mal dormida e com muito, muito vento, seguimos até o pé do Pedra da Mina. Acampamos por lá para subrimos no dia seguinte. Dependendo do tempo, seguiríamos para o vale do Huá e depois ao Pico dos 3 Estados, ou abortaríamos, descendo da Pedra da Mina e voltando a Passa Quatro pela descida do Paiolinho. No jantar, arroz com farofa mineira, com bacon e linguiça defumada... :P Muita conversa, um tanto de pinga com mel só para aquecer, e vamos dormir... uma noite pior do que a anterior, com ventos que até derrubaram uma das barracas às 3 da manhã. No dia seguinte, tempo só piorando, ventos cada vez mais fortes e muita neblina. Na subida, os ventos estavam cada vez piores, cerca de 70 km/h, que nos derrubaram por várias vezes. As rajadas ainda traziam muita umidade, o que dava o efeito de uma chuva lateral bem forte, nos molhando bastante. Todos juntos, com muita determinação, conseguimos subir ao topo, e em seguida começamos a difícil descida pelo Paiolinho, abortando o resto da caminhada por conta da chuva que se anunciava. Ao final da descida, após mais de 6 horas praticamente ininterruptas de caminhada, uma miragem: um boteco com 4 frangos assados e muitas garrafas de cerveja... para a turma cansada, um verdadeiro banquete... E, com a sensação de um desafio vencido, apesar de não termos completado a travessia, voltamos à civilização.
O legal disso tudo é sentir ultrapassando alguns limites, mostrando a si mesmo até onde podemos ir, além de sentir de maneira muito forte a nossa insignificância e fragilidade frente à força da natureza, quando se está desprovido de conforto e estrutura, e tudo com o que se conta é o póprio corpo e o que ele seja capaz de carregar. E a convivência com pessoas fantásticas nesses momentos, como essa turma que se formou, só torna a aventura, embora dura, mais prazerosa ainda. Uma experiência que recomendo...
Turma da trilha, agradeço muito pelos momentos e pela caminhada, e até uma próxima!


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29.3.09

Creep

Ainda de ressaca do show da semana passada, do Radiohead... Assisti em São Paulo, há bastante tempo que eu não ia a um show grande, foi bem legal... uma vez me disseram que a vida poderia ser simplesmente um bom show de rock... :-)
Aí resolvi colocar esse videozinho aqui, a música é muito bonita, a letra (e o vídeo também) é extremamente triste, e remete um tanto a um outro post de algum tempo atrás. Para simplesmete ouvir, ou para pensar...





Espero que curtam... embora meu estado de espírito esteja longe dessa tristeza, consigo ver beleza nela, consigo sentir o quão forte e significante pode ser sentir-se só, meio que desencaixado desse mundo sob vários aspectos... E sempre, sempre podemos recomeçar, contando com pessoas que nos rodeiam, mas antes de tudo, contando com nós mesmos...

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8.2.09

Como pode parecer normal?

Na última sexta fui surpreendido pela notícia abaixo:

Jovem é esfaqueado por "furar fila" de supermercado em São Paulo

Na verdade a chamada não era muito destacada, era apenas mais uma no meio das notícias cotidianas, normais do dia-a-dia. A notícia em si me pareceu assustadora, como uma coisa destas acontece, a que ponto uma pessoa pode chegar por conta de um motivo aparentemente fútil, corriqueiro. Não consta que o agressor tivesse antecedentes ou algo assim. Simplesmente uma discussão pelo lugar na fila começou, lá pelas tantas o cara saca um canivete e pronto, fura o outro. Não sei o que aconteceu depois, e aliás nem me interessa, posso deixar isso para os "Datenas" e seus programas "mundo cão" discutirem. De qualquer forma, uma coisa é ocorrer uma tentativa de assassinato durante um assalto, uma fuga da polícia, ou coisa assim. Mas numa situação corriqueira assim, ainda me assusta.
Agora, não sei se assusta mais o fato em si ou o pouco destaque dado à notícia, colocando-a assim, como algo simplesmente cotidiano. Cotidiano de um mundo que, definitivamente, não quero fazer parte.

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