25.10.08

Eloá, a menina de Santo André

Na semana passada todo mundo ficou sabendo - querendo ou não - do "mais longo caso de cárcere privado do estado de SP". Fquei estarrecido com o tamanho da cobertura dita "jornalística" que fizeram do fato, transformando uma tragédia privada em um assunto de interesse público. Fiquei imaginando, isso ajuda a vender jornal porque a população realmente "gosta", "precisa" consumir esse tipo de coisa? Ou isso vende porque a imprensa cria essa necessidade? Sim, porque tragédias como essa - ou piores - acontecem a toda hora, será que faz-se necessário esse alarde todo? Que sociedade é essa que se alimenta de informação dessa maneira?
Reproduzo abaixo um artigo, um dos poucos lúcidos que encontrei no meio dessa confusão toda...


Em vez de notícia, novela barata

Por Ligia Martins de Almeida em 21/10/2008
(fonte: Observatório da Imprensa)

Cada vez que a televisão faz uma grande cobertura de tragédia (como a queda do avião da TAM em Congonhas, a morte da menina Isabella e agora o seqüestro de Santo André), a imagem da imprensa fica um pouco mais prejudicada. Confunde-se reality show ou novela barata com cobertura jornalística. E os espectadores, indignados como vários leitores do OI em seus comentários, culpam a imprensa.

Está na hora de jornalistas conscientes aqueles que aprenderam que uma reportagem tem que ser bem apurada e que é preciso informar, mas respeitando as pessoas tomarem uma posição contra isso que hoje chamam de "cobertura". Sensacionalismo é uma coisa; jornalismo é outra. E o que algumas emissoras fizeram semana passada foi puro sensacionalismo. A impressão que passou é que as emissoras, sem nada melhor para oferecer aos espectadores, torciam para que o cativeiro da estudante continuasse para sempre. Ganhavam as TVs, sem coisa melhor para oferecer, ganhavam os anunciantes, que tinham seu produto valorizado num programa de grande audiência, e ganhou o rapaz, que virou celebridade de uma hora para outra.

A moça baleada, a amiga que voltou para o cativeiro e as famílias atingidas não pareciam ter a menor importância. Terminado o confronto entre policiais na frente do Palácio do Morumbi, o seqüestro de Santo André era o programa mais barato e fácil de produzir que as emissoras poderiam oferecer ao público.

Soluções dos "especialistas"

É preciso lembrar que existe grande diferença entre notícia e novela de televisão. E o que se viu, na cobertura televisiva do fato, foi um reality show ao vivo, engordando a audiência das emissoras que usavam seu tempo para focalizar a janela do apartamento onde se desenrolava o drama. Pior do que isso era acompanhar a tentativa dos apresentadores de encher o tempo dos programas com comentários pra lá de vazios, sem contar as perguntas a especialistas sobre o que aconteceria com o rapaz ao final do seqüestro.

"De onde estou, o que se vê é uma grande correria", dizia a repórter do SBT A imagem que a emissora transmitia era igual à de todos as outras tardes: carros de polícia parados, policiais reunidos e a janela com a luz acesa.

Mas o pior mesmo talvez seja acompanhar a reação das pessoas. Na sala de um consultório, com a TV ligada, na hora em que os envolvidos no drama saíram do prédio, um casal correu para perto do aparelho e obrigou a filha, de quatro anos, a fazer silêncio. Era como final de novela. Eles não queriam perder nada da cena.

O público acompanhou o seqüestro desde segunda-feira (13/10); cada pessoa criou suas teorias e encontrou suas próprias soluções para a situação: mandar remédio para dormir, cortar a luz, não enviar alimentos. Enfim: das mil soluções sugeridas pelos "especialistas" entrevistados pela TV, cada espectador escolheu a sua. Mas todos concordavam numa coisa: um certo jornalismo que ali se viu praticado não podia ter dado tanto destaque ao rapaz, logo transformado em personagem principal da tragédia.

Apenas tragédias pessoais

Hoje os espectadores não se contentam mais em buscar informações na imprensa: como acompanham as tragédias ao vivo (vide a Guerra do Golfo e o ataque às torres gêmeas de Nova York), acostumaram-se a interpretar os fatos a partir das imagens que a TV fornece e, infelizmente, dos comentários feitos pelos apresentadores. Acostumaram-se ademais aos âncoras que chegam a ficar horas no ar, preenchendo o tempo com entrevistas e comentários nem sempre bem fundamentados. O resultado é que o jornalismo hoje ganhou um novo sentido para o público. O que antes era investigação, interpretação e preocupação em ser fiel à verdade, passou a ser tido como um show.

Nesse jornalismo do espetáculo, de um lado, temos as emissoras, que fazem qualquer coisa para garantir o ibope, e do outro personagens transformadas em celebridades. O rapaz de Santo André, que começou querendo resolver um problema emocional, talvez não contasse com a notoriedade imediata. Ficou famoso, virou centro de atenções e se descontrolou ainda mais. O resultado foi uma vida perdida e outra destruída.

Mas isso não tem a menor importância para as emissoras de TV: os personagens dessa tragédia, como tantos outros, só interessam por alguns dias. Rapidamente a história fica velha, não dá mais tanto ibope, e o que sobra são apenas seres humanos vivendo suas tragédias pessoais. Não servem mais para esquentar a fraca programação diária, sobretudo a diurna, da TV aberta. Notícia de verdade sobre o estado das pessoas envolvidas com o drama, a forma como Lindemberg Fernandes Alves conseguiu suas armas, os pais dos jovens, a condição de suas famílias, a situação dos moradores da periferia de Santo André só aparecerá (e também por pouco tempo) na imprensa escrita.

Marcadores:

6.10.08

Ensaio sobre a cegueira


Eu li esse livro, e gostei muito. Se não me engano foi o primeiro livro do Saramago que eu li, e eu - assim como muitas pessoas - o julgava como uma estória muito difícil de ser filmada, pela densidade do texto, pela forma da narrativa, e pela própria estória em si, que conta uma situação onde as pessoas, de uma hora para outra, começam a ficar cegas, uma chamada "cegueira branca", aparentemente sem motivo, passam a enxergar tudo branco, mais nada... Uma fábula muito bem montada a respeito da dignidade humana, da hipótese que se percam as noções de humanidade, sociedade e se voltem a instintos básicos de sobrevivência, o que os aproximaria muito mais a animais do que ao que entendemos por seres humanos.
O filme foi uma surpresa muito positiva para mim, o Fernando Meirelles na minha opinião foi muito feliz ao tentar fazer este filme, e se saiu muito bem. Conseguiu, até certo grau, transmitir as inquietudes e desesperos, angústias que Saramago descreve tão bem através de seus personagens. Uma história atemporal, em uma cidade não definida, que acaba por formar uma idéia de fábula, aquelas estórias de ficção que são feitas para nos fazerem pensar, refletir sobre nossa própria moral e nossa própria humanidade. Um excelente filme, que talvez possa um pouco agressivo para alguns, mas é simplesmente mais uma tentativa de mostrar a vida crua, como ela é.

E muito me espantou a notícia de que a NFB (Federação Nacional dos Cegos) dos Estados Unidos tenha promovido um boicote ao filme(link), com a argumentação de que o filme retrata cegos como 'monstros, incompetentes e depravados' e que a cegueira transformaria pessoas decentes em 'monstros'. Na minha opinião, o filme não é sobre a cegueira. A cegueira é uma metáfora usada para criar a situação e contar uma estória sobre a crueza humana, a que ponto de selvageria seres humanos poderiam chegar em uma situação-limite. Independentemente de serem cegos ou não. É uma poesia dura, sobre a estupidez humana, que, segundo o próprio Saramago, "não distingue entre cegos e não cegos". Mas, como disse, é uma estória forte, densa, potencialmente difícil de ser entendida e absorvida, mas eu esperaria que em nenhum momento pesasse sobre ela a acusação - infundada, ao meu ver - de ofensa aos deficientes visuais. Não acredito que pessoas assistam ao filme e saiam de lá com a impressão de que cegos sejam 'monstros, depravados, desajustados, etc'. E sim levem talvez a imagem de quão longe de qualquer sinal de humanidade e dignidade pode chegar uma pessoa - cega ou não, é irrelevante - quando levada a uma situação que lhe aproximaria tanto de animais, como na estória em questão.

Marcadores: ,