14.12.07

Epitáfio

Estava eu outro dia dirigindo pela estrada que corta a cidade, pela manhã, quando de repente, em plena cidade grande, no céu, aparece um imenso arco-íris. Fiquei com vontade de parar, encostei no acostamento, liguei o pisca-alerta, saí do carro e fiquei olhando para ele. Normalmente, eles não aparecem grandes, apenas uma parte. Mas esse era enorme. Estava por acaso com a câmera no carro, e tirei essa foto. Fiquei ainda um tempo parado lá, olhando, levando aquela leve garoa no rosto. Sim, garoa, afinal, é um requisito para a existência de um arco-íris.
Poderia ter passado horas ali, observando esse pequeno presente que a Natureza nos oferece de vez em quando, e pensando em quantas vezes temos tempo para observá-los. Fiquei viajando um tanto, pensando em quantas vezes deixamos de observar coisas, de viver coisas, por não nos permitirmos, por inúmeros motivos: ou a falta de tempo, ou não darmos importância a determinadas coisas, ou simplesmente adiarmos algo que queremos muito, porque colocamos outras coisas como prioridades. Quantas destas coisas são realmente escolhas nossas, de coração, e quantas outras nos são impostas? E não necessariamente impostas por outros, mas por nós mesmos, silenciando nossos desejos verdadeiros em favor do que é mais 'correto', ou esperado que façamos ou que desejemos?
Sempre, desde que me entendo por gente, disse que gostava de viver intensamente, viver o momento, que é aquilo que temos, o que realmente importa, mas hoje vejo que muito disso era pura teoria. É difícil colocar isso em prática. A vida nos coloca em situações que não nos permite fazê-lo. Cabe a nós ter a coragem e clareza de encarar isso. Teríamos que ter coragem de nos entregarmos mais à vida, vivermos os momentos com a devida intensidade, a vida com a reverência que lhe é devida. Olharmos mais arco-íris, nos permitirmos passar mais tempo com as pessoas que nos são verdadeiramente importantes, fazendo as coisas por puro prazer, entregar-se... permitir vivenciar paixões, apaixonar-se por um livro, por um momento, por um quadro... ouvir uma música à exaustão enquanto ela continuar lhe tocando, satisfazendo... sorver uma poesia e ficar repetindo-a internamente pelo tempo em que ela continuar lhe fazendo sentido... permitir apaixonar-se pela mesma pessoa várias vezes, conseguir manter a ternura e a poesia protegidas do mundo que gira sem parar, impelindo-lhe para longe delas... não ter medo de parecer ridículo, não ter medo de demonstrar o que sente... permitir que as emoções e sentimentos sejam vividos, e não guardados e esquecidos... Afinal de contas, a vida é o agora, já, e pode realmente terminar na próxima esquina... isso torna cada momento tão especial e único, e acho que assim deveria ser tratado. E quantas vezes não deixamos momentos passar... alguns momentos a mais fazendo coisas que nos dão prazer, ficar ao lado das pessoas que nos são realmente importantes...
E como será que serei lembrado pelas pessoas ao meu redor? Espero ser lembrado como alguém que sim, tentou viver de maneira plena, não deixando as coisas para depois, aproveitando os momentos e permitindo-se viver... acho que é isso, simplesmente viver... acho que seria essa a mensagem que gostaria de deixar, como num epitáfio. Que não desperdicem os arco-íris ao longo da vida, aproveitem ao máximo que puderem, sempre... sorriam, sonhem, arrisquem, envolvam-se, apaixonem-se, vivam... acho que é essa a dádiva maior que a força que criou isso tudo nos deu...
Acho que é essa a mensagem importante para passar nesse final de ano...
É, acho que acabei encontrando o meu pote de ouro no final do arco-íris... :-)

foto: Cristiano Rodrigues

Marcadores: