22.7.07

Do acidente da TAM


Semana difícil essa... a sensação da falta de segurança nos aviões, a impotência em relação ao que aconteceu, a todas as pessoas que se foram de maneira tão abrupta e trágica. Mas uma coisa me chamou a atenção em meio a todo esse sentimento de comoção que tomou conta de toda a mídia: Enquanto as emissoras se degladiavam por informações, mas principalmente por imagens do local em chamas, dos destroços da aeronave, vejo uma notícia no mínimo curiosa a respeito, no site da Folha Online: TV evita divulgar imagens de queda de vítima do edifício da TAM.

A reportagem contava que a equipe de reportagem da TV cultura estava filmando no aeroporto de Congonhas quando houve o acidente. Por conseqüência, por acaso, eles tiveram então a chance de obter as primeiras imagens, exclusivas do local do acidente. Entre essas imagens, a imagem de uma mulher que ficou no mezanino do prédio em chamas. Essa imagem foi repassada a outras emissoras e repetidas à exaustão. Entretanto, a TV Cultura filmou também o momento em que a moça, no desespero me que a situação obviamente a colocava, saltou de onde estava para o chão, que estava a uma altura considerável. Ela caiu, foi socorrida mas não resistiu e faleceu. A TV Cultura, num ato que eu chamaria de lucidez isolada no meio de um surto coletivo, não divulgou e nem repassou a outras emissoras, julgando que "são imagens fortes, cuja divulgação não condiz com as normas que devem orientar a prática do Jornalismo Público". Não vi muita repercussão a respeito, e até agora (domingo à noite, quando escrevo) não tive a notícia de que tais imagens tivessem sido divulgadas.

Fiquei imaginando se alguma outra emissora teria uma postura como essa. Atitude corajosa, ética, em contraponto à idéia de que na luta pela audiência, em nome de um jornalismo que "não deve ocultar", ou "a opinião pública tem o direito de saber", poderiam somar essas imagens como apenas mais algumas no meio da cobertura.

Ou seja, enquanto outras emissoras brigam para serem as primeiras a mostrarem cenas do dito "mundo cão" sob questionável pretexto jornalístico, a TV Cultura preza pelo bom senso de poupar a população e a família das vítimas de imagens que, embora "vendam jornal", realmente não nos adicionariam nada. E não seria nada demais, deveria ser algo corriqueiro uma ação dessas. Mas, no mundo em que vivemos, é triste, mas devemos admitir que o que deveria ser regra acaba virando uma exceção honrosa e merecedora de destaque. Pena que quem deveria repercutir esse destaque seja justamente a mídia comercial que justamente se contrapõe a isso. E "isso", é simplesmente ética, respeito e bom senso.

(Agradeço às pessoas que ficaram me perguntando porque nào vinha escrevendo mais. Estava realmente com saudades desse espaço de reflexão, espero poder retomá-lo com mais freqüência no futuro, na medida que puder...)