Como não podia deixar de ser, precisava escrever algo a respeito do filme. Não por obrigação de escrever por aqui, que pelo intervalo entre posts dá para perceber que não é lá uma preocupação muito grande... mas queria escrever por que senti que precisava, depois de pensar um tanto sobre coisas que esse filme e reações a ele me fizeram refletir...
O filme, para quem ainda não viu ou não ouviu falar, mostra como age o Batalhão de Operações Especiais - BOPE, a chamada "Tropa de Elite" da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Policiais teoricamente incorruptíveis e bem-treinados, que se utilizam de tortura, execução sumária entre outros métodos característicos de militares em regimes de exceção. O
livro no qual é baseado parcialmente o filme, fala inclusive de corrupção nesse batalhão, coisa sobre a qual no filme não se fala em nenhum momento. O filme, embora extremamente bem-feito do ponto de vista técnico e sob a estética de Hollywood, é, na minha opinião, excessivamente simplista em diversos aspectos, como na colocação feita pelo anti-herói do filme, Capitão Nascimento (Wagner Moura, aliás, excelente no papel), de que "viciado vagabundo é que financia o tráfico", passando longe de qualquer discussão em relação a descriminalização das drogas ou um entendimento maior do que criou e o que mantém aquele cenário. É uma visão de um

militar, criado e treinado para simplesmente matar aqueles que ele (juiz e executor) considerar que se colocam contra a verdade e a justiça.
O problema maior no meu ver é a banalização da violência e da "aceitação" das técnicas utilizadas pelo BOPE como plenamente justificáveis. Fala-se muito da reação das pessoas nas platéias que viram o filme, na impressão generalizada de delírio e "torcida" quando um menino é torturado com tapas e um saco de plástico na cabeça, para dar uma informação. Ele não dá a informação, os policiais têm que ir embora, matam o menino gratuitamente. Para mim, a reação da platéia (confirmada por comentários que ouvi de pessoas que assistiram ao filme), é um sinal mais do que claro de que nossa sociedade está doente. O mesmos sistema que cria personagens como o Capitão Nascimento também gera esse sentimento generalizado de que isso é certo, de que todo pobre que mora na favela é em potencial um bandido, e cuja vida vale menos do que nada. O Capitão Nascimento, que se julga acima da lei e do arrependimento ("para um oficial do BOPE, o remorso é um sentimento muito perigoso", ele diz), justificando-se a todo momento por estar em estado de guerra, foi formado pelo sistema, o mesmo sistema que corrompe a polícia e nega oportunidades aos desfavorecidos, criando poderes paralelos em mundos paralelos, onde a moral ganha novos contornos com inversões de valores. Afinal , quem protege e ajuda (até financeiramente algumas vezes) a comunidade não é o poder público ou a polícia, mas sim o traficante que controla o local. E é interessante que no momento em que ele, Capitão Nascimento, precisa se tornar humano, com o nascimento do filho e a necessidade de estar próximo da família, ele precisa se desligar do BOPE. O BOPE não pode ter policiais humanos. Os "fracos" lá não entram. E no sentido contrário, o policial que está sendo treinado para substituí-lo, Mathias, só está pronto, só se torna um "policial de verdade" quando justamente perde seu lado humano, de estar se relacionando com outras pessoas.
E a mensagem que o filme passa (ao menos para mim, não sei se era a intenção do diretor) é isso, de que temos uma sociedade doente que cria figuras como essa e são - para meu espanto, sinceramente - apontados como hérois, como aqueles que não se renderam à corrupção ou se omitiram. Simplesmente "vão para a guerra", onde qualquer atitude é justificável. Não sei se o que me preocupa mais é saber que essas coisas (tortura, execuções e abusos por parte daquela que seria a "elite" da polícia) acontecem no nosso cotidiano, ou saber que isso é visto por grande parte da população como um ato de heroísmo e justiça. Tenho realmente muito medo do futuro em uma sociedade onde a maioria da população possa vir a acreditar que a solução seja realmente a proliferação de batalhões como esse, para acabar com todos os problemas de segurança que possam existir...
(foto: divulgação/montagem)
Marcadores: cinema, politica
1 Comments:
O pior é que realmente tem os que já decidiram-se por definir o Capitão como herói salvador. Aliás, na entrevista recente do Luciano Huck sobre o roubo de seu relógio Rolex você pode ver bem a posição da confortável classe A+++.
Não exatamente como combater a violência gerada pelo tráfico, mas acho que parte na solução é, sem dúvida, minar o mercado consumidor. EUA e Europa consomem quase toda cocaína produzida no mundo, e isso influencia bastante o que acontece nas favelas de São Paulo e Rio. Só nos EUA são 7 milhões de usuários, só de cocaína[1]. Ainda mais com o marketing que andam fazendo! ;)
Outra coisa: meu irmão Caetano trabalhou na mixagem do som do filme!
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