Renato Manfredini Júnior

Queria ter escrito esse post no aniversário de 10 anos da morte dele, dia 10 de outubro. Mas, estava de férias, fiquei meio longe dos computadores, então escrevo agora mesmo.
Sou e sempre fui um fã incondicional desse cara. Acho que as coisas que ele escreveu e nos deixou nos disseram - e ainda dizem - muito. Lembro-me muito bem da primeira vez que ouvi "Tempestade", o último disco da Legião Urbana lançado com ele vivo, pouco antes de ele morrer. Meu pensamento e comentário aos amigos era basicamente o seguinte: "Nossa, depois desse disco ele se mata, não é possível...". As letras fortes, com um "quê" depressivo, quase que uma despedida, de alguém que realmente desistiu de viver. E o pouco que se sabe publicamente dos últimos dias dele, apontam para isso: desistiu de lutar contra a doença, acabou...
E tentando sair um pouco do lugar comum, de venerar a obra e dizer o quanto cada passagem de cada música serviu de inspiração e de pano de fundo para tantos da minha geração, ainda hoje imagino o quanto de dor existia nele, o quanto ele sofreu durante a sua vida inteira. Por mais que tenhamos uma imagem de ídolo, de ícone, se chegarmos mais perto, vermos alguns depoimentos de pessoas que conviveram próximos a ele, veremos que foi uma pessoa triste, depressiva, alguém que parecia não encontrar o seu lugar no mundo. Talvez por possuir uma sensibilidade tremenda - sensibilidade esta que nos proporcionou coisas tão belas escritas por ele - ele sentia e vivia as dores do mundo de maneira intensa. A solidão e a revolta descrita tantas vezes, em tantas canções explicitam isso. Citando Vinícius, que dizia que "o poeta só é grande se sofrer", então Renato foi grande. Enorme. E como o próprio Vinícius, sofreu. Solidão, alcoolismo, dependência química, um mundo que diferia muito da imagem que fazíamos dele, alguém que expressava tão bem o amor e tantos outros sentimentos dos quais gostaríamos de falar mas não sabíamos como, e ele fazia com maestria.
E como sempre acontece com artistas depois que nos deixam, seguem lançando materiais inéditos, alguns até que seriam aprovados pelo próprio, mas outros que ficaram propositadamente deixados de lado, que ele provavelmente não gostaria de ver divulgado (quem já ouviu o disco póstumo "Presente" sabe do que estou falando), mixagens, invenções toscas com a desculpa de relembrar e acaba por até estragar algumas coisas, e expor outras que não deveriam ser expostas. Tudo para cotinuar a ganhar dinheiro com o que ele produziu em vida.
Talvez o preço da genialidade aliada à enorme sensibilidade seja realmente ter a vida que ele teve: intensa, porém vazia em alguns aspectos, sofrendo, vivendo tudo de maneira muito rápida, como que um "pára-raios" de todas as dores e angústias do mundo. E, de certa forma, acredito realmente que ele deva estar melhor agora, onde estiver...
Renato em um show no Rio, 1994.


