25.9.06

Por que voto Lula

Ao contrário do que pode parecer, não é um texto para convencer ninguém a mudar seu voto, ou ainda justificar a alguém a minha escolha. É muito mais um desabafo, talvez no máximo uma justificativa a mim mesmo, sobre essa decisão difícil. Costuma-se dizer que futebol, religião e política não se discute. Eu concordo em relação às duas primeiras, que podem - e geralmente são - opiniões guiadas muito mais pela emoção do que a razão. Mas, quanto à política, tenho que discordar. É importante que se discuta, que opiniões sejam colocadas, enfim...

Nessa campanha eleitoral eu estive muito à parte de tudo, o que pode parecer estranho em especial àqueles que me conhecem há mais tempo, de eleições passadas, onde eu militava, discutia, angariava votos e tudo o mais. A desilusão que tomou a todos que acreditavam que em 2002 um 'novo tempo' se abriria ao Brasil me pegou também. Cheguei a pensar seriamente em votar na Heloísa Helena, símbolo de coerência e decência para não compactuar de alguma forma com tudo o que se mostrou nesse governo. Voto de protesto, obviamente. Mas qual a diferença entre os que estão lá agora e os que estiveram lá antes? Tentando me livrar um tanto do linchamento moral encampado pela imprensa (afinal, escândalos vendem jornal, certo?), a mim pareceu muito que os esquemas de corrupção estavam lá, sempre existiram, e agora as diferenças são muito mais do quanto aparecem, e como não apareciam. Julgar que todas as pessoas de um determinado grupo ou partido são incorruptíveis é ingenuidade. Por má-fé, ou por achar que o bem maior de manter-se no poder para um projeto de mudança valeria pequenos deslizes, essas coisas corrompem. E cá entre nós, dólares na cueca e mais de um milhão em dinheiro não parece coisa de armação, ou de ladrão amador? E nunca um governo foi tão investigado como esse. E nunca a Polícia Federal teve tanta liberdade para agir, procuradores públicos ativos, não engavetando e abafando escândalos e investigações.

E partindo para o campo mais otimista, para fugir do "todos os políicos são iguais, safados, ladrões e etc", vale a justificativa colocada no post que escrevi há algum tempo atrás: Por que vai dar Lula?

Para o Brasil como um todo, fala-se muito em um crescimento pífio, carga tributária enorme, juros altíssimos (embora mais baixos do que com FHC), mas fala-se muito pouco do que melhorou na vida das pessoas menos favorecidas. Se as classes mais baixas do país fossem um país à parte, esse suposto país teria crescido mais do que a China(exemplo de crescimento altíssimo) nos últimos anos. O Brasil que queremos é um em que o bolo cresça igualmente para todos, ou que cresça um pouquinho mais para aqueles que mais precisam? O maior problema do país não é que a economia precisa crescer, mas sim que precisamos acabar com a diferença abismal que existe entre os poucos brasileiros ricos(muito ricos) e os muitos brasileiros pobres(muito pobres), uma diferença sem paralelo no mundo, em nação nenhuma em momento nenhum na História. Se o governo atual toma medidas para acabar com isso a longo prazo, ainda precisamos descobrir. Mas que está fazendo uma tremenda diferença na vida das pessoas que nunca foram lembradas antes, isto está. Os programas sociais, estritamente assistencialistas podem não resolver nada a longo prazo, mas fizeram a vida dessas pessoas melhorarem. E como os adversários nem isso fizeram, eu ainda aposto em Lula. Não com a paixão e esperança de eleições passadas, mas com um gosto amargo do conformismo, de estar votando no menos pior e, porque não dizer, com o nariz tampado na hora de votar. E torcer para que consigamos uma renovação no congresso que nos leve a um novo jeito, mais limpo de se fazer política, a médio e longo prazo. Uma
reforma política como deve ser feita. Mas o perigo é que quem vai fazê-la são os políticos. Por isso, escolhamos bem.


PS: Se alguém ainda estiver procurando bons candidatos a deputado em SP, tenho 2 nomes de pessoas sérias e decentes para recomendar:

Ivan Valente - federal 5050
Carlos Neder - estadual 13666

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18.9.06

Anjos do Sol


Esse é um desses filmes que deixam a gente com um sentimento meio difícil de se explicar, um nó na garganta, um embrulho no estômago, uma vergonha incomensurável da raça humana, capaz de coisas tão baixas, tão degradantes como as descritas nesse filme. Uma sensação horrível ao saber que se trata de situação real, atual. O filme conta a estória de uma menina, como muitas outras, que ao longo da curtíssima vida (12 anos) é vendida pelo pai, é comprada posteriormente em um leilão de moças virgens para depois depois ser levada a um bordel no meio de um garimpo. Submetida a violências de toda ordem, humilhações, sofrimento, o direito à vida arrancado com toda a força, como se dizendo que a vida, como a conhecemos, não foi feita para ela, para meninas como ela. É a ficção mostrando a realidade cruel, sobre a qual de certa forma nos é muito cômodo dizer que "é melhor nem saber"... difícil ficar indiferente ao saber que vidas podem valer tão pouco assim... E ver a infância, a inocência igualmente arrancadas, e completamente à margem do alcance do Estado, da sociedade como um todo que deveriam ser responsáveis por lhes proteger e assegurar esses direitos. Infelizmente, nenhuma ponta de esperança aparece no final desse túnel...

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12.9.06

A noiva síria


Depois de um bom tempo sem assitir a algum filme realmente tocante, que valha a pena de ser recomendado e comentado, assisti recentemente "A Noiva Síria". Uma estória contada de uma maneira muito humana, tocante, mas com humor. Narra uma situação simplesmente impensável para a nossa sociedade ocidental, mais uma vez vivida no oriente médio, tendo a questão judaico-muçulmana como pano de fundo. Uma família mora na região entre Israel e Síria, nas Colinas de Golan, um local que é reclamado pelos dois países de forma que as pessoas dali não têm uma nacionalidade definida. A noiva em questão vai casar-se com um primo que não conhece, mas que vive na Síria. Como a área onde mora é controlada militarmente por Israel, a moça só pode atravessar a fronteira para a Síria uma única vez, não podendo mais voltar e portanto nunca mais vendo a sua própria família. Todo o ritual do casamento é vivido portanto estando os noivos em lados diferentes da fronteira, os parentes se falam através de megafones porque não lhes é permitido atravessar. Seria realmente cômico ver a cena do pai "encontrando" com o filho separados por metros e metros de arames farpados e soldados israelenses. Seria cômico, não fosse a idéia de que isso acontece realmente, por mais surreal que possa parecer. E apesar disso, mostra-se a alegria de viver, de festejar desse povo tão lutador para quem o fato de simplesmente chegar vivo ao dia de amanhã é um ato de resistência. Quem puder, assista.

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