26.6.06

Anestesia coletiva

Um país inteiro, milhões de pessoas anestesiadas... é exatamente essa a sensação no Brasil em tempos de copa do mundo... é fantástico como as coisas param, tudo fica meio que no ar, o tempo passa meio devagar, e todos se unem em torno de algo único, forte, que concentra de maneira forte um nacionalismo, um ufanismo que em outros lugares seria canalizado para guerras, disputas étnicas e/ou religiosas, aqui só consegue ser focalizado para torcer pela nossa seleção de futebol. É verdade que se vê também torcidas fanáticas em outros países, mas por aqui é diferente. Diferente e praticamente impossível de ser explicado a um estrangeiro. Tente se imaginar chegando a um país onde tudo, trabalho, escola, bancos, serviços públicos, tudo permanece parado enquanto a seleção nacional disputa uma partida de futebol. Fico imaginando quão grande é a força, a vontade e a capacidade de união desse povo maravilhoso que é o povo brasileiro. Capacidade de superação, de luta, vem logo à lembrança de uma estória que ocorreu há muito tempo atrás, de um rapaz simples, que seguia chorando e correndo a pé o cortejo fúnebre do Ayrton Senna. Vendo o que ocorria, alguém da família de Senna (acho que a mãe, não me lembro bem) pediu que alguém chamasse o rapaz, para que seguisse de carro com a família. Ele recusou. E seguiu correndo, como que sua própria superação fosse como que uma homenagem ao ídolo morto. Fica uma sensação de força, de poder e de união muito grande. O que seria desse país se todo esse poder fosse canalizado para uma politização maior, uma preocupação e uma fé em mudar o país para melhor. Que a preocupação com a escalação do ataque da seleção seja trocada pela preocupação com reformas na educação, na política. Ninguém ia realmente saber onde esse país iria parar... Fizessem marcação cerrada com seus representantes parlamentares como fazem com técnico, jogadores, quando fazem coisas com que não concordam... o poder ao povo, democracia, enfim... seria muito bom. E olha que quem diz isso não é nenhum ser alheio ao futebol, muito pelo contrário, gosto, torço, acompanho, palpito... mas é que dá realmente uma dor no coração a sensação de que tanta coisa podia ser diferente por aqui... podíamos ser maiores, como já somos no mundo do futebol...

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4.6.06

Crônica em uma grande cidade

Aconteceu em São Paulo, mas acho que poderia ter acontecido em qualquer outra grande cidade brasileira. Bairro de classe alta, uma padaria bem freqüentada, diversos carros estacionados na frente, no estacionamento na calçada. Normal. Um carro chega, não há vagas, então ele estaciona na frente, fechando a saída de outros dois. A motorista desce e entra na padaria. Instantes depois, uma outra motorista, dona de um dos carros cuja saída estava trancada, sai da padaria. O rapaz que toma conta dos carros na frente da padaria se oferece para ir procurar a dona do outro carro. "Não precisa.", ela responde. "Se parou assim, deve ser rápido, vou esperar, obrigada.". Entrou no carro e esperou. Realmente, a outra saiu rápido. Mas, ao entrar no carro, o celular dela tocou. Ao invés de tirar logo o carro e atender depois, fica na porta do carro falando tranquilamente ao celular. A outra motorista, notando que poderia demorar, desce do carro e pergunta se ela poderia retirar o carro, que ela estava precisando sair. Até aqui, nada anormal, a moça ao celular poderia não ter percebido que estava atrapalhando, estar desatenta, sei lá. Mas a resposta dela foi um pouco diferente. "Ah, você precisa sair?", levantou-se do carro, e com a chave na mão, dirigiu-se ao carro da outra mulher e riscou a lateral do mesmo. A reação da outra, educada e contida até então, foi a seguinte: puxou a "folgada" pelo soutien (isso mesmo!), jogou-a de volta para dentro da padaria, e pediu para a moça do caixa chamar a polícia. Ficaram lá dentro batendo boca até a polícia chegar, e foram levadas para registro de queixa, para desespero do rapaz que olhava os carros, que ficou com os mesmos lá, parados e esquecidos.
Fiquei pensando numa reação mais estapafúrdia do que a de riscar um carro por um motivo tão fútil. Que fique claro, como desde o início desse relato, que se tratavam de pessoas educadas, com dinheiro, não era nenhuma periferia ou bairro popular. É fantástico como o problema tão falado da violência pode aparecer de diversas formas diferentes, talvez por algumas pessoas se acharem superiores, melhores do que outras sob algum aspecto e imaginar que podem simplesmente ignorar a vida em sociedade, conceitos mínimos de convivência. Pensar em mudar o macro sem mudar o micro é fácil, falar que o mundo não tem conserto se não consertamos nossas atitudes, nosso pequeno universo, nosso cotidiano. Não tem como. Lembrei-me de uma coisa dita pelo Renato Russo em um show: "Para mudar o que tá errado lá fora, é preciso primeiro consertar nossas próprias vidas". Não sei se a frase foi exatamente essa, mas a idéia é por aí...

(nota: não presenciei a cena, foi relatada por uma pessoa que estava no local.)

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