19.4.06

Maluf e os fuscas


Estava eu trabalhando tranquilamente hoje quando recebo um e-mail de um colega com esta notícia do site Consultor Jurídico, sobre os tais fuscas com os quais o então prefeito de São Paulo, Paulo Maluf presenteou a seleção brasileira de futebol em 1970 com dinheiro público.
A notícia dizia que Maluf não teria que devolver o dinheiro aos cofres públicos, após mais de 30 anos de processo. A primeira reação que eu tive foi de raiva, que vergonha, esse país é uma vergonha mesmo, etc, etc... mas, vamos conhecer os fatos, ver o que se passa... e a sensação que ficou foi essa mesmo, infelizmente... Em princípio, pela minha ignorância no campo do direito, achei que eventualmente alguma brecha legal poderia ter sido encontrada pelos tão bem pagos advogados do réu. Mas, qual não foi minha surpresa ao ler a tal notícia e ver que não, que simplesmente a lei usada para a condenação foi considerada indevidamente aplicada(?!)
E pelos comentários de pessoas entendidas no campo do direito publicadas no site, a indignação era meio generalizada mesmo... acho que foi um excelente contra-exemplo àquela frase que diz: "A justiça tarda, mas não falha". Ao menos por enquanto, parece-me meio óbvio que neste caso, a Justiça(com J maiúsculo) tardou e falhou... resta-nos acreditar numa outra justiça...

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13.4.06

Paraíso.. agora?

Nessa semana assisti ao filme "Paradise now"(Paraíso agora), um filme palestino que conta a estória de homens-bomba, mas muito diferente da maneira como os ocidentais costumam mostrá-los. O filme é bem-feito, um roteiro simples e direto, mas consegue mostrar muito do lado humano das pessoas, mostrar o quanto se sentem perseguidas, oprimidas, e as dúvidas e medos inerentes a pessoas que em determinado momento decidem por acabar com suas próprias vidas.
A trama se desenvolve de maneira angustiante, de forma a, se o espectador ocidental conseguir se livrar de pré-conceitos a respeito, pode até justificar as atitudes deles, guardadas obviamente as devidas proporções.
Particularmente, eu acho muito difícil para nós ocidentais - e talvez brasileiros em particular - de aceitar a idéia de uma guerra que dure por tantos anos, por tantas gerações porque pessoas diferentes acreditam ter direito - fornecido por Deus em pessoa - a um mesmo pedaço de chão.
E mais ainda, qualquer coisa, qualquer ação é justificada de ambos os lados por isso. Tanto o terrorismo de estado praticado por Israel quanto o terrorismo "desesperado" dos palestinos. Os mártires conseguem um status, serem valorizados e saber que suas famílias conseguirão um amparo impensável de outra forma. Numa sociedade mantida marginalizada pelos israelenses, acaba sendo uma das pouquíssimas possibilidades de se conseguir "algo".
Convém sempre lembrar que o Estado de Israel foi o primeiro a digamos, recomeçar essa briga no século passado, quando foi criado pela ONU e depois simplesmente ignorou suas fronteiras e desconsiderou a existência do legítimo Estado Palestino. Talvez se conseguíssemos imaginar essa situação extrema, de se sentir completamente abandonado, invadido, desumanizado e tratado com tanto desprezo conseguiríamos imaginar o ódio
que isso geraria por anos e anos, de geração em geração... matar o pai de outro porque o avô dele matou meu pai, ou simplesmente porque o povo dele mata gente do meu povo... acredito que guerra nenhuma vai adiante sem estupidez, e nesse caso a estupidez aflora em ambos os lados. Nenhum dos dois consegue ceder porque não consegue conter seus próprios radicais, nunca chegando a um consenso... um problema de séculos, que talvez o ocidente ignorasse por completo - como igora dezenas de
conflitos idênticos na África - se aquela não fosse, além de Terra Santa, uma terra tão rica em petróleo. Se um dia ele perder o valor, provavelmente Washington os deixaria, para matarem-se uns aos outros.
Uma desmilitarização e internacionalização da chamada Terra Santa talvez fosse uma solução... mas falta alguém para bancar essa idéia seriamente. Os judeus americanos provavelmente não deixariam que os Estados Unidos o fizessem, então...
Esperemos... e torçamos para que as gerações vindouras possam ser menos estúpidas e mais eficientes do que nós fomos... para o bem de todos... e que os jovens palestinos consigam de alguma forma o seu paraíso aqui, entre nós, sem a necessidade de morrerem por essa causa em busca do prometido paraíso...

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5.4.06

Para pensar...

Reproduzo aqui um texto muito legal, publicado na Folha hoje (05/abril), sobre o documentário apresentado "em primeira mão" pela Rede Globo, sobre os meninos que trabalham para o tráfico nas favelas do Rio. O autor do texto é Ferréz, cujos artigos já li na revista Caros Amigos por várias vezes. Questiona um pouco a validade e utilidade do trabalho ter sido feito como foi. Enfim, para pensar sob uma ótica diferente da mídia "alinhada", o que sempre faz bem...


Antropo(hip-hop)logia

Nesses dias, estava pensando cá com meus botões -pra falar a verdade, estou pensando num certo domingo e nos outros que vieram-, muitos sites, reportagens e programas estão simplesmente copiando o que papai global diz. A mídia convencional já faz isso, "clipa" as notícias e as distribui. E, agora, somos iguais, é a mídia do "hip-hop" imitando os grandes meios.
O assunto é o mesmo, o documentário que a Globo exibiu, a favela desnudada, exposta, aberta, e seu ingresso é somente um aperto de botão.
Mas, calma! Refrigera sua alma antes de tomar tal decisão. Falo isso porque o "hip-hop" e a nossa literatura sempre tiveram uma atitude diferenciada da atitude do resto das pessoas sem senso crítico. Ou não?
Mas, afinal, o que isso vai ajudar? Tupac morreria de novo, se realmente estivesse vivo, vendo um irmão de cor falando como branco na cara dura, compactuando com um dos programas televisivos (jornalísticos?) mais prejudiciais ao nosso povo.
Ultimamente tá assim, muita gente aceita tudo que vai rolar, como se fosse natural, e criticar virou um defeito. Acho que é um defeito quando você só critica e não faz nada, mas se faz, meu nêgo, então, pau no gato. Me perdoem, mas desconfio de muita coisa. Todo mundo tá correndo pelo seu -e isso é um fato-, mas tem umas atitudes em que a favela, ou nossa periferia, ou a comunidade, seja como você a chama, tá em último plano.
Até que ponto um documentário que foi apresentado e rotulado como "furo jornalístico", exibido em rede nacional, nos ajuda? Alguém já pensou nisso hoje? As críticas do então rapper MV Bill ecoaram por todos os jornais contra o filme "Cidade de Deus". Segundo ele, o filme não voltaria nada para o lugar e denegriria mais a imagem da Cidade de Deus.
E fica a pergunta no ar: "E o documentário "Falcão", não denigre essa comunidade e todas as outras por onde aconteceram as filmagens?". Até que ponto a denúncia dá vida e legitima a atitude violenta de alguém? Acho que denunciar é o que sempre fizemos, mas também com muita arte e senso positivo, lutando para um dia isso mudar. No final do documentário, fica uma pergunta, que, tenho certeza, todo mundo se fez: "E daí?".
Os telespectadores desligam a televisão e vão dormir, os comentaristas que foram convidados são uma piada. Glória Perez e Manoel Carlos vão escrever suas novelas, que é o que dá dinheiro, mas contribui para tudo que passou em "Falcão".
É, meus amigos, o efeito falando da seqüela. Ou será que a "dona Globo" daria 58 minutos para um documentário sobre o "hip-hop" enaltecendo os artistas do gueto? Não, acho que não. O resultado é a vendagem de produtos com o nome "Falcão" e até piadas,
como a do programa "Pânico", "Falcatrua, os meninos do Planalto". Mano Brown, Consciência Humana, Gog, Realidade Cruel e eu mesmo conquistamos a favela pelo talento, não pelo escândalo. Você quer isso? Então, filma o maloqueiro com o fuzil em cima do morro, mas, no final, me dá uma dica sobre como não perpetuar isso.
Porque o telespectador já sabe que tá um caos mesmo, mas tá olhando só pro próprio umbigo, ou seja, se os problemas do morro não são parecidos com os meus problemas, então, não há problemas. Retratar o caos, pura e simplesmente, não é revolução. A nossa revolução é querer mudar, querer -de verdade- mudar. Sem essas de capitalizar em cima da miséria, que é o que muita gente tá fazendo, pensando que estamos dormindo, pensando que estamos de chapéu.
Graças ao meu pequeno dom, ganho meu $ honestamente, vendo roupas, vendo livros, vendo minhas palestras, mas nunca comercializei o gueto. O que está à venda é meu trabalho, não eu.
Não sou santo no bagulho, tenho defeitos -e muitos, por sinal-, mas vamos deixar claro um barato, tiozão, num vem jogar arroz em falso casamento, que, aí, é subestimar demais a rapaziada da favela. Pra quem não sabe, há eventos aqui, quermesses, shows na rua, teatros ao ar livre, saraus. Mas isso não atrai, felicidade não dá Ibope.
Meu povo não é só aquilo, imagens borradas, desesperança em todas as quebradas. Somos mais, muito mais. Só quero dizer que temos que refletir, tantos meninos tiveram que morrer para alguém vender mais CDs, documentários etc. É isso? Apenas isso? E a mudança? Orientar sobre gravidez precoce, sobre o uso de drogas, montar uma campanha real para nossos meninos e meninas desvalorizados, estigmatizados pelos olhos da elite, do próprio povo e por todos os meios de comunicação? Não podemos só mostrar a conseqüência, temos que mostrar a causa.
Nem tudo que você vê é nossa cultura, não somos antropófagos. Pense nisso e não me fale, por favor, de discurso "hip-hopista", que isso já deu no saco, não entrei no "hip-hop" pra ser reformista. Se não, me dá a conta que eu tô saindo fora, o nosso movimento é muito bom, todo mundo entra, talvez esse seja o problema, falar em nome dele é fácil, mudar a ideologia pode parecer fácil, mas, enquanto Deus colocar ar nos
pulmões desse maloqueiro aqui, a dificuldade chega.
Porque da mãe que amamenta tantos ninguém pode ferir o peito. Só isso.

Reginaldo Ferréz, rapper e escritor, é autor de "Capão Pecado"
(Labortexto, 2000), romance sobre Capão Redondo, bairro na periferia de
São Paulo, onde vive o escritor, e de "Manual Prático do Ódio"
(Objetiva, 2003).

(fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0504200609.htm)