16.5.06

Histeria coletiva

Pânico generalizado... terror... a pior parte é de se ter um inimigo sem rosto, oculto, não identificado, pode ser qualquer pessoa na esquina, podem ser ocupantes do carro à sua frente. O grande objetivo deles não era matar policiais. Era criar o pânico, mostrar a sua força. E mostraram. Uma guerra, onde não se conhece os inimigos, qualquer sombra pode ser o inimigo, passamos a temer não só os bandidos, mas a polícia, que está acuada, ameaçada e sem ter muito como agir. Um carro com quatro homens dentro pode ser uma ameaça, como decidir em uma fração de segundo? Atirar? Perguntar? Avisar? Pânico instaurado, estava eu circulando às 8 da noite numa cidade fantasma: tudo fechado, pouquíssimos carros e pessoas na rua, e me veio aquela sensação horrível, "eles conseguiram"...
Uma discussão que rolou durante o dia em todos os lugares, já vieram comentários do tipo "tem que matar todos esses vagabundos", "dar um sumiço nesses que já se sabe que são os chefes", e por aí vai... Então... é justamente esse tipo de raciocínio que devemos evitar, na minha opinião... vivemos num estado democrático de direito, e existem instituições que devem manter a ordem, instituições que julgam e instituições que aplicam as punições. A idéia mais simples e imediata de "dar sumiço", ou "baixar o cacete" nos torna ao mesmo tempo juízes e carrascos, o que no estado de direito me parece completamente impraticável. Faz-se necessário a revisão e modernização das instituições, impedir que as coisas cheguem novamente a esse ponto. Modernização dos presídios, para impedir armas e celulares, maior capacitação e remuneração para os profissionais do sistema carcerário e policial, acompanhamento pelo ministério público das pessoas envolvidas (advogados, carcereiros, policiais - pois alguns destes colaboram para "abastecer" os presos), idéias existem aos montes. Na Itália no início dos anos 90 foram tomadas diversas medidas para desmantelar o crime organizado, sem mexer nas liberdades civis. Falta vontade política e coragem para bancar mudanças como estas.
Hoje o dublê de governador em uma das poucas declarações dadas, soltou essa: "Precisamos que a Justiça nos permita escutar as conversas entre os delinqüentes e seus advogados". Uma temeridade como essa seria terrível, onde estaria o limite numa situação dessas? A garantia do direito de defesa é algo que deve ser inquestionável, sob quaisquer circunstâncias, ao menos eu penso assim. De outra forma, estaríamos todos à mercê do Estado, calculem os abusos que isso geraria.
É preciso fazer algo, realmente... mas é preciso serenidade para evitar nos levar pela mídia, tomarmos decisões e criarmos juízo de maneira impetuosa, no calor dos fatos... passada a histeria coletiva das últimas horas, antes de tudo é preciso manter a cabeça no lugar... e lembrar que existem outros problemas, que geram a violência, como a desigualdade social, educação... urge que nesse país se crie uma cultura de que resolvendo esses problemas hoje, lidamos com o cerne do problema maior para as gerações que virão... para que elas não passem pelo que passamos hoje...

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5 Comments:

At 16 Maio, 2006 10:55, Anonymous Ana Paula said...

Acho que não tenho mais o que comentar... você apresentou argumentos muito adequados!
Que possamos permanecer acreditando na democracia, no exercício de direitos e na solidariedade.
Beijo, Ana

 
At 21 Maio, 2006 09:54, Blogger Renata said...

Tenho pensado que esse 'caos' que acreditamos viver, ingenuamente, por um único dia, talvez sirva para nos despertar de nossa acomodaão cotidiana e nos fazer questionar a tão anunciada 'tranquilidade' que acreditamos viver nos demais 364 dias do ano...

 
At 23 Maio, 2006 11:10, Anonymous Anônimo said...

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